Em dois minutos, as feras atingiam a beira do seu retiro. Ali, o leão, vendo que a fuga era inútil, deixou cair o veado, e esperou. Foi um momento de tréguas, uma suspensão como a de há pouco, quando o leopardo segurava a presa. Em volta, o silêncio, a hora da anunciação, a hora em que os nocturnos vão dormir e os diurnos renascem para a luz. Claridades de sonho, cimos de árvores embebendo-se em algodoamentos pálidos, guarnições de graminias lanceoladas meneando-se ao sopro hesitante do Poente, e, por toda a parte, o vago, o confuso, a emboscada da natureza, feita de fronteiras arborescentes, de clareiras, de faixas cetinosas de céu.

Lá em cima, os astros despertos, o salmo da eterna vida.

Sobre um montículo, o espeleu recortava na claridade lunar o seu perfil altivo de dominador, a crina pendente sobre uma peladura mosqueada de pantera, a testa chata, as maxilas proeminentes,—rei outrora da Europa cheleana, em decadência hoje, reduzida a estreitas faixas de território. Mais abaixo, o leão, de respiração rouca, a pesada garra assente sobre o veado, hesitante em face do colosso, como pouco antes o leopardo diante dele, uma fosforescência nas suas pupilas, mesclada de receio e cólera. Na penumbra, já familiarizado com o drama, o homem.

Um rugido surdo se espraiou; o espeleu sacudiu a[{8}] crina e começou a descer. O leão, em recuo, de dentes descobertos, largou por dois segundos a presa; depois, desesperado, estimulado pelo orgulho, voltou com um rugido mais estrepitoso que o do seu adversário, e assentou de novo a garra no veado.

Queria dizer que aceitava o combate. O espeleu não obstante a sua força prodigiosa, não respondeu logo. Parado, acuado, examinava o leão, calculava-lhe a força e a agilidade. O outro, com a altivez da sua raça, conserva-se de pé, de cabeça erguida. Novo rugido do agressor, uma réplica retumbante do leão, e achavam-se a um salto de distância.

—Lô! Lô!—murmurou o homem.

O espeleu transpôs a distância, a sua garra monstruosa levantou-se ante as unhas do inimigo. Por dois segundos, a pata ruiva e a pata mosqueada defrontaram-se num armistício final. Depois, o ataque, uma confusão de crinas e maxilas, bramidos ferozes, enquanto o sangue escorria.

Ao principio, o leão dobrou-se, sob o tremendo assalto. Desembaraçado em seguida, fez um salto transversal, atacou de flanco e a batalha tornou-se indecisa, amortecido o arrojo do espeleu. De repente, o frenesim dos organismos, a agitação dos músculos de bronze, a indecisão de esforços malogrados, o revoltear das crinas ao clarão da lua, um despegar de carnes igual às palpitações de uma onda no mar, a escuma das goelas e a fosforescência das pupilas fulvas, bramidos semelhantes ao restrugir das tempestades nas franças dos carvalhos...[{9}]

Finalmente, o leão, ferido por um golpe terrível, caiu, rolando; e o espeleu, como um raio, atirou-se sobre ele e começou a rasgar-lhe o ventre.

Debateu-se o leão, rugindo medonhamente. Conseguiu porém levantar-se ainda, de entranhas pendentes e juba ensanguentada. Compreendendo não só a impossibilidade de fugir, senão também que o outro não se apiedaria dele, fez rosto sem fraqueza, e reentrou no combate com tal fúria, que, durante minutos, o espeleu não pôde dominá-lo.