As primeiras friagens confirmaram o prognóstico. Vamiré, desagasalhado em favor de Élem, tiritava ao sopro do nordeste prematuro. Teve de gastar a manhã inteira do dia seguinte, em descobrir algum animal felpudo; e, de emboscada, surpreendeu um urso, atravessando-lhe o coração com a zagaia.

O cérebro do animal, misturado com o cerebelo e a medula de uma rena, serviu para untar a pele, previamente esfregada e desembaraçada da gordura e dos tendões.

Desde então, puderam ambos estar quentes, durante o sono. Élem, encantada do conforto, ria docemente, com uma confiança infinita. Mas Vamiré mantinha a preocupação das grandes chuvas próximas, durante as quais a floresta era inabitável. As feras, mais agressivas então, as hordas de lobos perigosamente esfomeados, iam amplificar a luta nos bosques. Em combates contínuos, as armas partir-se-iam. Era preciso estacionar, durante semanas, em alguma gruta, para renovar arpões e zagaias, para conjurar os perigos nocturnos de um acampamento volante e as torrenciais chuvadas ao ar livre.

Por menos suave que fosse o inicio do período diluviano,[{121}] Vamiré poderá chegar às grutas em fins de Julho, sob a condição de se apressar e de não perder tempo. Não se desprecatou; e, desde a aurora ao crepúsculo, a sua mão vigorosa fazia andar a piroga. Infelizmente, à barca sobrevieram avarias, e foi preciso despender três dias em reparos.

Por fim, a barca foi de novo lançada à água. O rio, com a enchente, tomava a cor do barro, e transbordava já para as margens mais baixas. A corrente, além disso, opunha-se; era preciso ir junto da terra; grandes troncos flutuavam ameaçadores, e algas terríveis emaranhavam as suas meadas.

Élem passava grande parte do dia, envolta na pele felpuda, e amodorrada pela monotonia da água corrente. O repasto era a sua principal ocupação. Amarrava-se então a barca em qualquer calheta. Graças à provisão de folhas secas em lugar coberto, o lume era suficiente para acabar de assar uma posta de élafo, um palmípede, um peixe arpoado em viagem.

O clima seco e frio dos tempos madaleneanos nas estepes da Europa, posto que moderado no Oriente meridional, comportava todavia o súbito regresso do frio antes do equinócio do Outono. Este facto ocasionava emigrações parciais de símios, de gamos, de chacais, de roedores, de aves palmípedes e pernaltas. O antropóide recuava então para o trópico, enquanto as hordas do mamute chegavam mais numerosas, e os pais do elefante indiano, os filhos do grande Anticus de Chelles desciam das montanhas.

Vamiré fazia parar, às vezes, a piroga, se um bando[{122}] de gamos ou de chacais chegava, em marcha, à beira do rio; mas o que verdadeiramente o apaixonava era o êxodo dos macacos, que, desfilando, e saltando de ilhota para ilhota, passavam à outra margem. Cabriolavam, clamorosos, aos centos, baloiçando-se, saltando a vinte côvados, apanhando de novo um ramo de árvore, suspendendo-se e prosseguindo aos saltos. A face deles tinha trejeitos, que pareciam determinados por ideias. Tinham gestos inteiramente humanos, coçando a cabeça, catando-se, assentados, descascando frutos com os dedos e com os dentes. As suas orelhas bem caireladas, os seus olhos de visão recta, a finura, a inteligência dos seus movimentos, encantavam extremamente Vamiré.

Sucedeu que uma fêmea, furiosa, atirou um filhito para o caniçal. Debalde gemeu ferido o pequeno macaco: os outros pareceram não cuidar em não avolumar a sua coluna com um inválido. Comovido, o grande nómada correu a apanhar o pequerrucho. Encontrou-o gemendo, de mãos estendidas no peito. Agasalhado, alimentado de frutos, o animalzito tornou-se estimável: gostava de dormir no colo de Élem, de se encarrapitar no ombro de Vamiré, beber água na mão dele, de se arrufar com a sua própria imagem na face do rio; e nada satisfazia o coração de Vamiré, como o ver o macaquito, inquieto, caprichoso, brincão.

Seria aquilo uma raça de homens anões?