O chefe ia na retaguarda, cheio de resistência nas suas fibras ressequidas, espantando sempre a desordenada horda dos lobos, mas prestes a sucumbir.

Aos vitoriosos clamores dos homens responderam latidos a distância. Os lobos uivaram angustiosamente; depois, ouviu-se um agitar de mato, e passarem por ele centenares de corpos invisíveis, ladridos raivosos e a debandada dos lobos, a sua fuga, em meio de murmúrios de raiva e gritos de matança e de agonia.

Tranquilos então, os orientais chegaram à orla da floresta, onde os cães aliados, e dirigidos por um chefe, aguardavam os seus amigos.[{118}][{119}]

[XVI
A chuva]

Aproximava-se o período diluviano do Estio, que todos os anos vinha ensombrar o céu quaternário. O vento arrefecia então, o frio matava, muitas vezes, a flor ou o fruto no ramo, e grandes fomes sucessivas exterminavam os frugívoros. Transbordavam rios e ribeiros; e o homem, encerrado na gruta da região alta, aprovisionado, hibernava, passando as horas a fabricar utensílios e armas.

Vamiré, prevendo aqueles dias nefastos, remava todo o dia. Élem, submissa, dominada, ajudava-o. A carne de élafo assado servia para a alimentação; e acresciam frutos silvestres, raízes tenras, ovos tirados dos ninhos serôdios.

Vamiré velava ternamente por Élem; e as noites, que eles passavam nas margens do rio, trescalavam a poesia imensa das infâncias.

Abrigavam-se perfeitamente contra o ímpeto da chuva; a barca, sustentada por quatro espeques, servia[{120}] de tecto; a pele do espeleu tapava o lado do vento; e grandes ramos pendiam da barca, de todos os lados.

Foi naqueles dias que o grande nómada do Ocidente se tornou esposo da filha dos países desconhecidos...

O ruído da chuva, o fragor da floresta açoitada pelo vendaval, isto, de per si, já falava de invernia e do prazer do refugio.