Entre estes não havia mulheres: as mulheres, em hordas confusas, seguiam-nos de muito longe. A primavera reunia os sexos em paragens tradicionais; depois, o bando masculino abandonava o bando das fêmeas durante o Estio, o Outono e o Inverno.
Eram como vencidos, os vermívoros. Saídos cedo da matriz antropomorfa do período terciário, lançados nas vias externas do humano pela adopção de armas, de métodos de sociabilidade, já muito distanciados do processo animal, para que nele reentrassem sem fraquejar, tinham perdido, em frente do vigoroso quaternário, a esperança orgânica, esta força singular que abandona o velho tipo do Vermelho perante o Árico.
Demais, relegados nas estepes áridas ou na profundeza das florestas, fracos, mal armados para a caça da ligeira fauna silvestre, descambavam progressivamente na fitofagia, adestrados em descobrir os tubérculos que há debaixo da terra, em conhecer as hastes e raízes comestíveis, fazendo provisões de pevides de melancias,[{125}] de grãos de helianto, gulosos de moluscos, passando o Inverno nas costas do Cáspio ou do Mar-Negro, onde se alimentavam de pesca rudimentar.
Uma bondade, um instinto adorável, tornava a vida do individuo preciosa para a comunidade. As partilhas eram reguladas pela mais estrita igualdade, e cada qual tinha a maior dedicação em salvar o companheiro da garra das feras. Por isso, eram ainda senhores do leão, do urso, do leopardo e até do antropóide; mas tinham medo enorme dos braquicéfalos, caçadores das estepes fecundas: é que tinham visto perecer milhares dos seus, sob os golpes das frechas e zagaias.
Nunca se aproximavam dos acampamentos inimigos, a menos de seis dias de marcha, e até evitavam os grupos insulados.
Vamiré cativou-os pelo seu riso ingénuo, e pela generosidade com que lhes ofereceu alimentos da sua barca: postas de élafo e de esturjão, ovos de adem. Também estas provisões foram repartidas, com gáudio do Pzann. Este, brindando o chefe com uma pele de raposa, todo se tomou de surpresa, quando viu que a pele era gravemente retalhada e distribuído um pedaço a cada um do bando.
O seu riso franco, e a sua tentativa de fazer compreender o absurdo daquela prática, sugeriram alguma desconfiança aos vermívoros; e manifesto ainda era o terror que Élem lhes inspirava, e o desgosto dela; a ponto que Vamiré, mau grado seu, decidiu separar-se deles.[{126}]
Reembarcou pois. Já a distância, escondido pelos caniçais, fixou longamente a vista, com exclamações em voz baixa; os comedores de vermes, activando as suas fogueiras, agrupavam-se à roda delas; e, depois de construírem com ramos uma ligeira choupana, em que o chefe se recolheu, acocoraram-se sobre os calcanhares, ao ar livre, com a cara entre os joelhos, as mãos na cabeça, e assim adormeceram.
O Pzann sentiu então grande piedade para com a sorte dos seus irmãos inferiores. Ao amarrar a barca, passava em seus lábios um murmúrio de tristeza. Mostrou-se sombrio, à refeição da noite, e adormeceu tarde.
Acordou antes da aurora, e observou a partida dos vermívoros. Viu-os atravessarem o rio a nado, e desaparecerem ao nascente. Quando já os não via, suspirou melancolicamente, acordou a sua companheira, e desamarrou a piroga.