Na expectativa de extraordinário acontecimento, Élem e Vamiré conversavam.
Agora, já o Pzann podia compreender e exprimir as ideias fundamentais da linguagem dos braquicéfalos. Julgava oportuno interrogar a filha do Oriente; mas, nas suas reminiscências, nada ela encontrava, que esclarecesse a situação. No seu crânio supersticioso perpassavam apenas as antigas lendas do Animal das águas, expulsando das florestas todos os seres animados, a fim de investir o homem na posse delas. Os animais foram salvos pelo Elefante cornígero, que reina em as montanhas; e a Serpente, rival do Animal das águas e inimiga do homem, opôs-lhe o ser imundo que se alimenta de vermes, e a quem as tribos sagradas aniquilarão...
Estas coisas falavam pouco ao espírito do nómada e até o indignavam. Acaso o homem não vive de carne? e que seria das florestas e planícies, sem animais?[{142}]
Depois, Vamiré não podia imaginar um animal invisível. As suas duvidas abalavam as crenças de Élem, a qual, todavia, continuava a murmurar as suas orações, e a resguardar-se a si e ao seu amante, com práticas religiosas; e o mesmo faria até a hora da morte, e porventura até depois, se o destino lhe concedesse filhos, porque as coisas místicas, embora nasçam lentamente, são como o pigmento da carne ou a forma dos crânios, que só o tempo transforma e aniquila.
Inclinados sobre o rio, aguardavam a noite, que vinha chegando. O clarão do Crepúsculo era vívido e roxo a um tempo, duplicado pelo reflexo. Sob aquele clarão, a margem parecia muito distante, semelhando, sobre a floresta, uma fronteira alvorescente em face das sombras eternas; na margem, moviam-se animais fugitivos, os seus corpos escuros limitados por traços de luz, os espinhaços roliços ou sinuosos, lisos ou eriçados, as cabeças delicadas e longas, ou largas e volumosas, as armas pontiagudas do élafo, a vasta fronte do gamo, a crina ondeante do cavalo, o tronco flexível e serpentiforme da lontra, o dorso corcovado do urso...
Quando a noite se ia cerrar enfim, e as árvores e o rio se engolfavam lentamente na sombra, houve uma suspensão. Cada vez mais raros, já se não viam senão animais vagarosos, insectívoros ou carnívoros vermiformes que fugiam de uma vivenda próxima. Vamiré e Élem redobraram a atenção, e perceberam um rumor muito distante, semelhante ao uivo dos lobos ou ao lamento dos chacais.
Quase ao mesmo tempo, avistou-se na margem um[{143}] bando considerável de comedores de vermes. Mostravam-se fatigados, recurvados, cobertos de lama e de sangue. Transportavam em braços grande número de feridos, e, diante da impossibilidade de transpor com estes últimos o rio, quedavam-se amargurados. Vigias de retaguarda surgiam da espessura a cada instante, com gestos de alarma, mas ninguém tugia, ninguém pensava em atravessar o rio sem os feridos, e muitos dispunham estoicamente as suas clavas para uma luta extrema, quando Vamiré saltou para a sua piroga, dirigindo-se para eles.
O bando, que ele encontrara quatro dias antes, reconheceu o gigante loiro e manifestou alegria. Os outros, prostrados de fadiga, estupefactos, viram chegar aquele homem.
Vamiré chegou à margem, e fez sinal para que transportassem dois inválidos para a canoa. Os que se recordavam dele obedeceram; os demais confiaram-se passivamente à ventura.
Vamiré fez uma quinzena de travessias, e todos os feridos se acharam na ilhota; os outros alcançaram-na a nado.