E Vamiré pensava nos comedores de vermes, na profunda tristeza deles à hora da separação, nos seus broncos semblantes, no vago latir das suas risadas, e dos seus queixumes, na gratidão infinita dos seus olhares e na dificuldade com que eles, demorando-se junto de Vamiré, se resolveram a partir.
Do alto de um pequeno outeiro, despediu-se deles com um grito de amizade, a que corresponderam com a humilde melopeia da marcha. Firmes na união fraternal, que era o que os mantinha de pé em face do antropóide e das grandes feras, transportavam consigo os seus feridos.
Pelas gargantas das ilhotas, pelos vastos canais alumiados, as semanas sucederam a semanas, algumas vezes o sol dardejava os seus ardentes afagos, ou soprava o nordeste, açoite invernal, ou caíam lufadas impiedosas. Era mester então procurar abrigo nas calhetas, em cavernas[{175}] propicias, e perder dias inteiros, até melhorar o tempo.
Mas Vamiré tinha o peito cheio de grande orgulho, porque vencera as ciladas da natureza, a agressão dos animais ferozes, e o ardiloso ataque dos homens. Parecia-lhe tornar a ouvir, nos lararios nocturnos, o velho Tá, de cento e vinte Invernos, narrando o esboroar das montanhas, o escancarar do solo, a absorção dos grandes lagos em fauces de abismos.
Sentia-se maior que Harme. A história da sua viagem, referida pelos anciãos, faria palpitar o coração dos moços: surpresas do rio, perversidade dos répteis, ferocidade das feras, homens das árvores, regiões novas, homens tardígrados, comedores de vermes, Élem... E os velhos acrescentariam que devia ter sido necessária uma vontade invencível, para dominar a nostalgia, o horror das imensas solidões!
Ainda os sorrisos do céu, e os rudes aguaceiros, o rio verde ou lodoso, a corrente mais impetuosa, rápidos e catadupas, e sempre a barca, empenhada no regresso, com Élem folgando ou dormindo e Vamiré manejando o remo...
Sentiam-se próximas as chuvas, as infinitas chuvas. A tribo, refugiada nas cavernas da alta região, não deixaria as savanas do Oriente meridional, antes de meado outono, e Vamiré tornaria a ver seus pais Zom e Namir, seus valentes irmãos, e sua irmãzinha, que saltava como cabra montesa. E apresentaria aos velhos, humildemente, a esposa que ele levava de longe.[{176}]
Pelas gargantas das ilhotas, à sombra de árvores, e pelos extensos canais desensombrados, no declinar do período madalenico, quando o pólo do Setentrião gravitava para o luzeiro do Cisne...[{177}]
[a]Índice]
- [PALAVRAS DO TRADUTOR]
- [I. Guerra nocturna]
- [II. A horda]
- [III. O funeral de Vanhab]
- [IV. A ilhota]
- [V. O homem das árvores]
- [VI. Contra-anúncio]
- [VII. A perseguição]
- [VIII. Noite na floresta]
- [IX. O idílio nascente]
- [X. Combate]
- [XI. Vamiré]
- [XII. O mamute]
- [XIII. Entre os orientais]
- [XIV. Reconquista]
- [XV. Reforços]
- [XVI. A chuva]
- [XVII. Os aliados]
- [XVIII. Os vermívoros]
- [XIX. Na ilhota]
- [XX. Assalto à ilhota]
- [XXI. A derrota]
- [XXII. O incêndio]
- [XXIII. Regresso]