Havia d'antes em Penajoia—terra que ninguem é capaz de ver no mappa geographico de Portugal—uma aula regia de primeiras letras.

A aula era n'uma casa de um só andar, rente do chão. Ficava no meio de uma clareíra, e tinha ao lado dois grandes sobreiros, que a abrigavam do sol, no estio, e que rangiam, no inverno, quando sopravam as rajadas do nordeste.

Os alumnos entravam ás oito horas da manhã, saíam ao meio-dia, para jantar; e voltavam depois ás duas horas, para sairem ás cinco da tarde. Alguns d'elles vinham de longe, meia legua, tres quartos de legua de distancia. Eram todos pequeninos e pobres. Saíam ao romper da manhã de suas casas, com o livro debaixo do braço, e a louza das contas pendente de um cordão, lançado a tiracollo. No caminho, os que vinham de mais longe, iam-se reunindo aos condiscipulos que encontravam; jogavam o botão, ou, se era tempo, trepavam aos castanheiros para cruelmente roubarem os ninhos dos melros e verdelhões.

O mestre, que tinha sido um valente cabo de milicianos, era um velhote rabujo, de pellos nas orelhas, e que pouco mais sabia do que os alumnos, que ensinava.

Um dia perguntei-lhe eu:

—Diga-me cá, sr. Joaquim, que methodo adopta?

—Que methodo?!—exclamou elle, estranhando a pergunta. E depois, levantando as sobrancelhas, e com as sobrancelhas os oculos, fitou-me desconfiado, e respondeu com ar solemne:

—Adopto o methodo do Achiles (do Axiles, foi como elle dísse).

Mas, a despeito de tudo isto, era um tyranno, como o são quasi todos os ignorantes.

A aula, como já disse, ficava ao rez do chão. A luz entrava por duas frestas, que ficavam acima dois palmos da cabeça de um homem; porque assim era preciso—explicava o mestre—para que os rapazitos se não distrahissem, a olhar para fóra. Ao fundo da sala ficava uma meza de pinho e uma cadeira, que era o logar do mestre. Depois seguiam-se bancadas de pau, collocadas como uma platéa, duas a duas, deixando ao meio um intervallo, por onde entravam os alumnos; e, quando todos tinham entrado, por onde passeiava gravemente o professor, com o livro n'uma das mãos, e na outra um junco.