—Então?
—Está no céo!
—Está no… céo? Então vou procurar o céo.
E ficou, por muito tempo, debruçado sobre o mappa, a procurar onde ficaria o céo para ver o seu papá, até que deixou pender a sua loira cabecinha sobre o livro, e adormeceu.
O RETRATO DOS PAES
A mala-posta, que seguia do Porto para Braga, passava, ás 7 horas da manhã, defronte da Izabellinha—aldeola obscura, que fica emboscada n'uma deveza cerrada de carvalheiras, entre Santiago da Cruz e a estrada de Barcellos.
Como era subida, os cavallos iam a passo, de redeas bambas, com as cabeças pendentes, saccudindo com as caudas os moscardos teimosos, que lhes afferretoavam nos ilhaes. Na imperial do tejadilho os passageiros cabeceavam com somno. O cocheiro, com o chapéo desabado cahido para o sobr'ôlho esquerdo, por causa do sol, e com as redeas entaladas nos joelhos, petiscava lume da pederneira e acendia pachorrentamente no morrão um cigarro de Xabregas.
—Ainda não enxergo o manco—disse o conductor, com os olhos fitos n'um atalho, que vinha sahir á estrada.
—Toque-lhe a busina, homem—alvitrou do lado o cocheiro, com a voz rouca da aguardente—toque-lhe a busina; que, se não apparecer, adeus! a culpa é d'elles.
O conductor limpou com a palma da mão o boccal da corneta, que levava ao tiracollo, applicou-o aos beiços, inchou as bochechas d'ar, e soprou de rijo, tirando um som roufenho, prolongado, com intermittencias, que se ouvia de longe.