O manco, que estava encostado no cunhal do muro, á sombra d'um castanheiro, sahiu a meio da estrada.

Ao passar a mala-posta, o conductor atirou-lhe d'alto com uma sacca de brim, surrada, suja e fechada com uma vareta de ferro, em cuja extremidade pendia um aluquete triangular. O manco estendeu os braços para a suspender no ar. Assim que a aparou, sopesou-a duas vezes, com os braços esticados, e observou:

—Hoje pesa!

—Hoje ha paquete—explicou succintamente o conductor.

E, como a estrada principiava a descer n'uma ladeira ingreme, volteou com força e á pressa a manivella do travão, e disse para o manco:

—Adeus.

A mala-posta seguiu a trote largo pelo meio da estrada, aos solavancos, levantando nuvens densas de poeira, com grande ruido das rodas, fremito das vidraças e o tilintar constante dos guisos das colleiras.

O manco atirou para o hombro com a mala das cartas, fincou o braço concavo da mulêta no sovaco direito, e desandou pelo atalho fóra, a coxear, para casa do Bento do correio.

Ao fundo do atalho, em continuação do muro tosco dos campos, ficava uma estacada já velha, combalida, esverdengada das chuvas da invernia a resguardar uma leira hortada de couves e cebollinho. Tinha dentro uma casita de telha vã com porta e postigo sem vidraça. Dirigiu-se o manco á cancella da palliçada, correu-lhe o ferrôlho pêrro na armella, e gritou:

—Ó tia Anna! tia Anna!