Abriu-se a porta da casa, e appareceu no limiar uma velhinha tremula, curvada para diante, com uma roca enfiada á cinta, a fiar estopa.

—Que é lá, manco?—perguntou ella, inclinando-se para fóra, com a mão fincada na humbreira.

—Correio!—gritou o manco com um grande berro.

A velha fez-lhe com a mão signal de que esperasse. Poisou dentro a roca e o fuso, e sahiu á horta ageitando com os dedos as farripas brancas do cabello, que lhe espreitavam por debaixo do lenço. O rapaz transpoz a cancella, foi ao encontro da tia Anna, e gritou-lhe com a bocca muito aberta:

—Correio! ouviu?

A mulher fitou-o com os olhos espantados, e perguntou:

—Que é? Não oiço.

O manco sorriu-se resignado; collando então a bocca ao ouvido da tia
Anna, repetiu com maior brado:

—Correio! correio! ouviu agora?

—Ah!—exclamou a velhinha, esfregando as mãos de jubilo radiante—ouvi, meu filho, ouvi:—é correio!