De quatro em quatro mezes escrevia para a terra, dizendo que o trabalho lhe roubava o tempo de o fazer amiudadas vezes. Que não tivessem cuidado, que ia bem de saude e que esperava ser feliz em poucos annos.

A tia Anna, quando não tinha carta no correio, ia da Izabellinha a Braga, a pé, entrava no Carmo, ajoelhava á beira da campa do milagroso Frei Joãosinho da Neiva; e, com as mãos postas em supplica junto da bocca, implorava com ancioso fervor pela saude e prosperidade do filho ausente. Ao passar pela caixa das esmollas, á entrada da egreja, lançava algum dinheiro no gazufilacio. Pedia a Nossa Senhora da Conceição dos Congregados pelo filho do seu coração. Entrava em Santa Cruz, ajoelhava em frente do altar do Senhor dos Passos, e rezava uma estação e um rozario com as faces de rojos; subia a beijar os pés da sagrada imagem; e benzendo-se tres vezes com a corda d'esparto puido e lustrosa, que cingia a tunica do Senhor, retirava-se ás recuadas, rezando a meia-voz, até sahir do templo!

* * * * *

Seis mezes antes do manco annunciar á tia Anna que tinha chegado o correio, recebeu ella uma carta do filho, dando-lhe parte de que ia casar com menina rica, de nascimento—dizia elle—prendada. Queria o retrato dos paes, e enviava-lhes dez moedas para as despezas necessarias.

Quando isto constou na Izabellinha, houve geral regosijo.

—Eu não lhe dizia, tia Anna—lembrava-lhe uma visinha.—Se eu logo vi!
Aquelle seu Joaquim nunca me enganou. Eu futurei aquillo!

—Pois isso bastava uma pessoa olhar para elle—acudia outra, aleitando um filhinho gordo, que tinha no regaço—Aquelle ôlho d'elle, lembra-se, tia Josepha?

—Pois não alembra? O rapaz era fino, que nem um alho! Se aquelle não se arranjava por lá, então—bôa te vae!—não sei o que ha-de ser d'outros que foram depois. Olhe vocemecê, tia Anna, aquelle filho da moleira, o zerôlho; aquillo é um morcão, que não serve para nada.

A tia Anna, sem attentar no confronto, que lhe realçava as qualidades do filho, ria e chorava simultaneamente. E não se sabia dizer se aquellas lagrimas serenas illuminavam o sorriso, se o sorriso mais entristecia as lagrimas!

Dois dias depois da recepção da carta, resolveram-se, ella e o marido, a ir a Braga para tirarem o retrato. Vestiram-se com a melhor roupa domingueira, que servia para a romaria do Espirito Santo, no Bom Jesus do Monte. Ella ia toda sécia de saia escura de serguilha, com tomado e muitas pregas miudas no coz, collete de chita amarella salpicada de florinhas verdes, camisa branca de linho com mangas enfunadas e abotoadas no pulso, meias finas, e sóquinhas de panno azul com ponteiras de verniz.