Estas e outras razões do marido venceram as saudades da mãe.

Foi preciso vender dois grilhões e um par d'arrecadas, venderam-se; foi preciso vender tambem uns novilhos, que se engordavam para embarque, venderam-se na feira de Villa-Nova; e apuradas sete moedas e meia, impoz-se o rapaz para o Brazil. No Porto, a tia Anna tomou passagem para o filho, á prôa, na galera Constancia, da casa dos Pennas; mercou-lhe uma caixa de pinho nova; vestiu-o com dois fatos baratos n'um algibebe da Ponte-Nova; escolheu-lhe um par de chinellas nas sapateiras das Carmelitas; guardou-lhe e ageitou-lhe tudo na arca, e poz-lhe a um canto, com a maior devoção, o registo do Bom Jesus do Monte.

Pobre mulher! Liquidou as parcas economias, que representavam privações e sacrificios, afadigou-se de trabalho, ralou-se de saudades, chorou muito; e, quando viu de terra a galera Constancia seguir lentamente rio abaixo, com as vellas enfunadas pelo nordeste e a prôa inclinada á barra, cahiu de joelhos e de bruços no caes de Massarellos, com as mãos tremulas atadas na cabeça, a soluçar afflictivamente pelo filho da sua alma, que lhe acenava com o lenço, debruçado na amurada do navio, a chorar!

* * * * *

Chegou a primeira carta a Izabellinha decorridos tres mezes da partida do rapaz. Foi um alegrão que os paes tiveram! A carta era escripta em papel paquete, muito fino, pautado; e até como os portos do Brazil estavam suspeitos de febre amarella, vinha o papel todo golpeado. Foi lida a carta pelo Bento do correio, foi lida pelo boticario, foi lida pelo snr. cura, antes de ser delida pelo calôr do seio da mãe, que a guardava junto do coração, como reliquia; e, de cada vez que ella ouvia as palavras do filho, era um chorar copioso, que retalhava o coração. O brazileiro da Granja, que indusira o rapaz a embarcar, esse sorria-se, e consolava-a d'este modo:

—Deixe lá, tia Anna! Ali é que um home se faz gente. Está aqui, está um brazilêro como a mim. Lhi garanto, tia Anna, que o rapaz se tiver tento na boia, hem? arranja pátácária gorda, e, em pouco tempo, átiça baixella em casa.

Nenhumas d'estas consoladoras esperanças, nem até a de átiçar baixella em casa, leniam as saudades d'aquelle coração attribulado da tia Anna.

—Ora!—oppunha ella com a voz nazal e soluçante de quem suspende as lagrimas para falar.—Em um homem tendo saude e a graça de Nosso Senhor, em toda a parte do mundo é Brazil! Riquezas são o demonio.

—Não diga pátácuádas, mulher—contestava o brazileiro azedo e carrancudo—não diga pátácuádas.

Depois, passados mais annos, á proporção que as saudades da aldeia se desvaneciam no animo do rapaz, as cartas iam rareando.