Isto passava-se no tempo em que se guerreavam os partidos de D. Pedro e de D. Miguel.
Quando ás aldeias chegavam noticias aterradoras, as mães estremeciam ao contemplar os filhos afadigados na lavoura.
—De mortos nem a conta se sabe!—diziam os mensageiros. Vae por ahi a fim do mundo!
—Jesus, Senhor! E então diz que é guerra d'irmão contra irmão!
Valha-nos Deus!
De uma vez, oito soldados e um furriel pararam á porta da azenha do Euzebio. Passado um instante, a gente da aldeia chorava com brados afflictivos, vendo o Simão do moleiro atravessar no meio da escolta com os braços presos, como um degredado! O velho, assim que lhe arrebataram o filho, ainda tentou abraçal-o; mas—coitadinho!—como já lhe custava a andar, quando chegou á porta, ia o rapaz a subir a encosta.
Aos gritos da visinhança acudiu Margarida ao postigo da azenha. Perguntou o que tinha acontecido da outra banda; e, quando lhe disseram que o Simão tinha sido levado para a guerra, a pobre rapariga soltou um grito agonisante e cahiu desfallecida nos braços do pae.
As aguas tinham engrossado com as ultimas chuvas, e os dois velhos, quando se avistavam de longe, desatavam a chorar, como duas creancinhas!
Decorridos oito dias, a gente da aldeia acordou sobresaltada com o tiroteio, com o rufo das caixas e o som dos clarins. Feria-se uma batalha a pequena distancia.
Quando a tropa alli passou, todos viram o Simão moleiro, que parecia outro! Ia magro, esfalfado, com os sapatos rotos, coberto de pó, a espingarda ao hombro, a mochila ás costas e a chorar! Ao passar rente das casas ia saudando os conhecidos, e dizia ás raparigas que pedissem a Deus por elle.
Sahiu do povoado sem ter visto o pae nem Margarida. Levava o coração retalhado!