Depois, adiantando parallelas as mãos, como se quizesse attrahir n'um braçado o auditorio estupefacto, dizia:
—«Vêde para que serve o oiro! Não vos julgueis desgraçados, se vos não assistem grandes riquezas! Não deixeis que a inveja se enrosque, como serpente ardilosa do inferno, em vossos corações».
E, apontando o indicador para o céo, proseguia com voz mais solemne:
—«É ahi que se vê a previdencia de Deus! Concedeu o oiro aos ricos, para que o distribuissem pelos pobres! Pedir não é humilhação nem vergonha! Deu-nos o exemplo Jesus, o Divino Mestre, que ensinou aos discipulos a pedir com humildade!
E que maior consolação—continuava o prégador—que maior consolação do que soccorrer com a esmola áquelles que a fortuna fez menos abastados!? Apagar a fome, saciar a sêde, vestir os nús, enxugar as lagrimas das viuvas, amparar a orphandade, dar arrimo á velhice!»
E exclamava:
—«Oh! santa caridade! Oh! flôr sacrosanta do altar de Deus! A caridade…»
E retrahindo-se no pulpito, arqueando os braços á frente, aproximando as mãos com as cabeças do indicador e polegar delicadamente unidas, recitava com voz untuosa, repassada de mimo:
Á noite a virgem modesta,
A casta filha de Deus,
Furta-se aos hymnos da festa,
E envolta em candidos véos,
Desce a escada sumptuosa,
Mãe dos maus, irmã dos bons,
Lá vai levar carinhosa
A toda a parte os seus dons.