O prégador apparecêra no pulpito. O seu rosto oval de uma pallidez maviosa, fronte larga, barba escanhoada e azulada no queixo, destacava-se da alvura da sobrepeliz de cambraia bordada.
As suas mãos estreitas e brancas sahiam d'entre as rendas aniladas das mangas, que lhe chegavam até á raiz dos dedos.
O abbade olhou attentamente o auditorio, e ajoelhou. Ergueu-se depois, arrepanhou os canhões da sobrepeliz, ageitou a estola, expigarrou com tom solemne e passou á flôr dos labios o lenço, que depôs cuidadosamente ao lado. Em seguida, fincando a palma das mãos no parapeito do pulpito, adiantou o busto para a frente e principiou com voz debil:
/# —«Mulierem fortem quis inveniet? Proverb. 31». #/
Era o sermão de Santa Izabel, rainha e martyr. O prégador historiou a vida da santa, desde o tempo em que, menina e môça, nos seus palacios de Aragão, o seu principal divertimento era a oração e o exercicio da caridade. Desposada por el-rei de Portugal, D. Diniz, em breve as leviandades amorosas do esposo lhe amarguraram o coração trahido.
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—«Porque—exclamava o prégador, alçando o braço—quantas vezes o
manto de uma rainha esconde um coração attribulado!? Em meio da
ostentação d'um palacio, cercada de todas as magnificencias reaes,
filha e esposa de rei, como a grande rainha de Lacedemonia, quae
Regis filia, Regis uxor, a princeza santa não tinha o socego, o
descanço, a alegria da mulher humilde d'um mechanico!
Era rainha, Regis uxor, era poderosa, era rica; mas a principal
riqueza era a da sua alma.
O oiro copioso dos seus cofres não tinha o grande valôr do oiro
d'alto quilate do seu coração,—oiro de lei, purissimo, sem liga,
que se não gasta e consome com o uso, antes se acrysola e
engrandece com o exercicio das boas acções!»
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Algumas mulheres soluçavam commovidas; e a sr.^a viscondessa, que o ouvia com attenção, fechava os olhos em signal de concordancia, e acenava affirmativamente a cabeça.
Proseguia o sermão. O prégador falava da santa, quando acudia pressurosa aos infelizes. Referiu o milagre da transformação dos pães em flôres, sendo surprehendida pelo rei, quando ia esmolar aos pobresinhos!