Ás onze horas da manhã ouvia-se o murmurinho surdo do ajuntamento no logar da romaria. Pela estrada já pouca gente passava; e a que ainda vinha á festa, caminhava de vagar, fatigada, rente dos muros das quintas, para se abrigar do calôr ardente e abafadiço de julho.
De repente, na curva que a estrada faz, junto do pinheiral, appareceu a carruagem da sr.^a viscondessa, que era, n'esse anno, a juiza da festa.
Os transeuntes paravam, encostados aos muros, e voltavam-se para ella, com os chapéos na mão, como se abrissem passagem respeitosa a uma rainha. A carruagem descoberta era tirada por duas egoas inglezas, que esbofavam com ruido, batendo as patas a compasso na areia fina e reluzente da estrada. O cocheiro vinha aprumado na almofada, com as pernas esticadas, e na mão direita levantada suspenso o pingalim. Dentro, reclinada no estofo escuro da carruagem, a sr.^a viscondessa sorria affavel para os lados, agitando levemente a cabeça. Uma marquezinha côr de perola abrigava-a do sol. No logar da frente ia o sr. abbade, um abbade ainda novo, muito escanhoado, vestido com batina lustrosa, cabeção de renda, barrete de setim levemente inclinado na corôa da cabeça. Levava as mãos crusadas sobre o ventre e os olhos fitos no vestido da viscondessa, um vestido verde-mar, com guarnições de renda, que se abria diante d'elle, como um leque.
Os romeiros, só depois da carruagem passar, é que continuavam o caminho, e, olhando entre si d'um lado e d'outro da estrada, sorriam gloriosos.
Quando a sr.^a viscondessa apeou á porta da egreja, estalou no ar uma girandola de foguetes; e eu, que não tencionava assistir á festa, acendi um charuto, e dirigi-me vagarosamente para o logar da egreja, antes que principiasse o sermão.
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Estava a egreja armada com sanefas e cortinas de damasco escarlate, onde as luzes das tocheiras de prata do altar punham reflexos vermelhos.
Fóra da têa gradeada do altar-mór, via-se o povo, de pé, apinhado, com o olhar espantado e perdido na decoração ostentosa do templo. A pedra do altar-mór estava revestida com toalha franjada de rendas. Um tapete largo de variegadas côres cobria o estrado do altar, descia os tres degráos preso por varões de metal lustroso, e estendia-se na capella-mór até á grade. Tres padres velhos, avergados sob o peso das capas d'asperges com brocados d'oiro, estavam sentados ao lado, com os pés unidos e estendidos para a frente. Sentia-se um cheiro forte a incenso; e, no côro, soavam as ultimas notas plangentes das rabecas acompanhadas a orgão e rabecão.
A sr.^a viscondessa entrou apressada pela porta lateral, que dava para a sachristia, e ajoelhou-se em frente do altar, com a cabeça muito levantada e os olhos pregados na imagem do Christo crucificado em meio de luzes e ramos de flôres. Depois de rezar, com as mãos postas em supplica junto do seio, persignou-se lentamente e sentou-se.
N'esse instante, houve um rumôr vago entre os fieis, que enchiam o templo.