E, fechando os olhos, retezava e repuxava o vestido para as aparar ali todas.
Já Consuelo tinha uma bôa regaçada, quando, de repente, ouvimos, ao longe, uma voz trémula, que cantava assim:
En un ameno bosque
Mi niña duerme;
Cuidado, pajarillos,
No se despierte.
Consuelo foi deixando, pouco a pouco e quasi insensivelmente, cahir o vestido, cahir as cerejas, cahir os braços; e ficou a olhar para mim, com a cabeça erguida, na immobilidade de uma estatua.
Eu, que estava nos ultimos galhos da arvore, em ponto eminente, ainda pude alcançar a estrada.
E vi, então, sahir d'uma taberna, que se abria, uma companhia de saltimbancos.
Ia atraz um velho, vestido de malha, com lentejoulas, que relusiam ao sol. Levava, pela mão, uma pequenita, com uma saia curta de cambraia muito suja e remendada. O saltimbanco caminhava devagar, com a cabeça descahida para o peito, os olhos no chão, a cantarolar:
/*
Cuidado, pajarillos,
No se despierte…
*/
Depois, quando desci os olhos para a Consuelo, que permanecia em baixo, como estarrecida, vi-lhe á flôr das palpebras duas lagrimas enormes, que tremiam, como duas gottas d'orvalho nas pétalas d'uma rosa!