De uma vez que estava sentado ao sol, que—como diz o outro—é a roupa dos pobres, viu aproximar-se um cão amarello, pequeno, feio, rabudo, com duas malhas na cabeça. O Simão atirou-lhe pão; e, tanto que lhe foi dando de comer, conservou-se o cãosito junto d'elle. Depois já ninguem o retirava dos pés do seu bemfeitor.

Para quem vive sem companhia vejam lá que alegrão é encontrar junto de si um pequenino animal, que nos vê com olhos cheios de desinteressado carinho! Ficou o cãosito sendo o companheiro do tio Simão. Como viesse sem nome, que é como apparecem os engeitados, o tio Simão baptisou-o.

—Fiel!—exclamou elle—Fiel, anda aqui.

E aproximava-se o Fiel do velhinho, com a obediencia affectuosa de um filho amado. Para onde fosse o Simão ia o Fiel.

Assim que o sol lhe bateu no postigo—que era ao meio dia que tinha logar a visita—o Simão enfiou a jaqueta melhor que tinha, pegou no cajado a que se arrimava, chamou pelo Fiel, deu volta á chave e encaminhou-se para a residencia da morgada. Quando ia a poisar o pé na primeira pedra, viu o Fiel, que ia na frente, resvalar na pedra escorregadia, e cair ao rio!

O Simão recuou cheio de susto, de afflicção, com as mãos postas em supplica. O cão principiou a nadar para o seu dono; mas ia tão grossa a levada, que o não deixava vencer a corrente. Depois de muito esforço, conseguiu afinal abordar; mas todo alagado, a tremer, a ganir, com o corpinho coberto das contusões, que tinha recebido do embate das pedras.

—Anda, Fiel, anda, meu filho—dizia o pobre velho a chorar.

Tomou o cãosito nos braços, achegou-o do seio, e desandou para casa. No caminho ia dizendo:

—É o mesmo! Farei eu o caldito, que ha-de chegar para nós ambos!

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