Depois, appareceu á porta o moleiro, com o chapéo enfarinhado caído para o hombro esquerdo, segurando no hombro direito o taleigo da fornada. Vinha ainda a gritar:
—Despacha-te, rapariga. Mexe-te, filha.
E atirou com o folle para cima da besta. A moça veio depois, e carregou-a com um folle do outro lado. Atiraram-lhe em seguida a cilha para cima; e o moleiro com o joelho fincado na barriga do macho, principiou a apertar a carga, torneando o arrocho com esforço.
—Prompto! Põe-te já a caminho, que eu não me delato, Therezinha.
Apenas se julgou fóra do alcance da vista do pae, que se deixou ficar á porta, com uma perna cruzada sobre a outra, o chapéo braguez derrubado para os olhos, a vel-a subir a encosta, a rapariga saltou para cima do macho, ageitou-se no meio dos taleigos, e continuou pelo atalho acima, a cantar:
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Ao passar hoje no rio
Vi nas aguas o teu rosto;
Cuidei que ias na levada…
Ai! coração que desgosto!
E ao vêr o teu rosto ali
(O que são coisas do mundo!)
Cuidei logo que uma estrella
Tivesse cahido ao fundo.
*/
O moleiro voltou para dentro, a prover a moega de grão; enfiou depois a jaqueta de cotim axadrezado, calçou as sapatas ferradas, que tinha a um canto, fechou por fóra a porta da azenha, arrecadou a chave, e abalou na piugada da filha.
Assim que chegou a meio do atalho, cortou á esquerda por uma quelha pedregosa, atravessou por um carreiro, que costeava uma bouça; e, fincando as mãos no muro tosco de rebos, saltou de um pulo para o meio da estrada.
Corriam os primeiros dias de março.