O abbade abeirou-se lentamente do enfermo, com o ciborio nas mãos.
Preparou-o solemnemente para o trespasse.

Quando lhe ungia os labios com os santos oleos, murmurando as palavras do ritual:—Per istam unctiouem indulgent tibi Dominus quid quid delinquisti per gustum, o Ambrosio fincou os punhos na enxerga, ergueu-se com esforço e ancia, volveu os olhos em torno do leito, como quem desperta de um sonho, e inclinando-se para o abbade, perguntou-lhe com voz debil e convulsa:

—É vinho?

E descahiu lentamente para traz, com um sorriso de bemaventurado a radiar-lhe a fronte—como um justo que morre na esperança de encontrar na vida d'além-tumulo as adegas bem providas d'Amarante!

Talis vita, finis ita.

O ABANDONO DO MOINHO

Á porta da azenha estava o macho íntonso, preso pelo cabresto a uma argolla da parede.

Emquanto o não carregavam voltava melancolicamente a cabeça para o lado, estendia o pescoço lanudo, e ia tosando uma moita de silvas, que murava o atalho.

De entre o ruido trémulo da mó e o marulho da levada, caindo do cubo nas pennas do rodisio, em baixo, ouvia-se gritar lá dentro:

—Anda d'ahi, que são horas. Avia-te.