Ora, depois d'isto, em que tenho a gloria de ser o Plutarcho d'este heroe, vejam se andei mal, chamando-lhe Anacreonte de Candemil.

A distancia que vae de Ambrosio a Anacreonte mede-se pela que vae do tamanco transmontano á sandalia grega, das cêpas tortas d'Amarante aos vinhaes racimosos de Chios, das faldas agrestes do Marão ás formosas marinhas da Jonia, provincia das violetas.

* * * * *

Pelos primeiros dias de maio, antes das festas do Espirito Santo, o céo estava sereno e azul, as arvores frondentes, e na ramaria dos bosques gorgeiavam os melros. Havia flôres nos prados, flôres nas encostas, flôres por toda a parte. A natureza enfeitava-se como noiva graciosa que se prepara alegre para o festim dos esponsaes.

Pois, quando havia tanta luz, tanta vida, tanto amôr, gorgeios pelos ninhos e rosas pelos silvados, era triste pensar que alguem estava para deixar a vida!

Logo de madrugada o sr. abbade atravessou da residencia para o adro, antes da primeira missa do dia. O sino principiou a dar o signal do Senhor fóra.

E d'ahi por alguns minutos, o Viatico seguia por um atalho, ao canto plangente do Bemdito, entoado em côro pelas mulheres, que caminhavam atraz, acompanhando o Sagrado.

O pallio parou á porta da casa em que morava o tio Ambrosio de Candemil.

Dentro, sobre uma arca de castanho, revestida com toalha de linho, estava um crucifixo ladeado de duas tocheiras de chumbo. A um canto da sala, o velho Ambrosio agonisava reclinado no espaldar do leito. Não tinha na face a alegria expansiva dos ultimos dias, em que cantarolava na taberna. Estava pallido, os olhos amortecidos, as faces descarnadas, a bocca enviezada de paralytico.

Foi confessado e sacramentado.