Uma fileira de mulheres e creanças passavam constantemente da draga do areial com cestos carregados á cabeça. Antes de chegar ao rio, a estrada apparecia toda coberta de cascalho, que reluzia á luz intensa do meio-dia.

Como as aguas tinham diminuido, uma barca com linguetas levadiças á prôa e á pôpa, que servia de transporte, como uma jangada, no inverno, estava da outra banda, presa por amarras aos troncos de dois amieiros. As pessoas que tinham de atravessar o rio iam pelas alpondras desanegadas; mas quando acontecia apparecer uma cavalgadura, então era preciso que os trabalhadores lançassem sobre as pedras duas pranchas largas, que serviam de passadiço.

Quando a filha do moleiro chegou ao rio e ia a metter o macho na agua, um dos homens, que ali estava, gritou-lhe:

—Não mettas o burro á agua, rapariga; olha que te afogas e mais elle.
Espera que eu lá vou.

A rapariga soffreou o macho e esperou.

Ao aproximar-se o homem com a prancha de pinho levantada ao alto, o macho espantou-se, empinou as orelhas, recuou de subito e, de um salto, atirou comsigo e com a rapariga ao rio.

O trabalhador, que viu aquillo, principiou a gritar por socorro. Accudiram os outros; mas, quando chegaram, o macho tinha seguido para o meio, onde a corrente do rio era mais impetuosa e fazia redemoinho. A filha do moleiro caíu para o lado, estonteada do sobresalto e da sensação do frio; e os homens que lhe gritaram de terra viam-na seguir a cavalgadura com a mão presa na extremidade do cabresto.

N'esse momento, um homem que corria, muito afflicto, pela vereda abaixo, logo que chegou á margem, atirou com o chapéo para a banda, e lançou-se de repente ao rio; mas apenas a agua lhe bateu pelo tronco, estremeceu todo, bracejou um instante e appareceu estirado á flôr da agua, a boiar, com as faces rôxas da congestão.

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Quando ia vêr as obras do rio—era esse o meu divertimento—façam ideia como eu fiquei!