A fabrica do convento era pobre, de frontaria humilde; e as paredes escuras e deterioradas pelo decurso dos annos accentuavam o conspecto melancholico e lugubre da clausura.

Em um nicho fronteiro á porta da entrada, apparecia a imagem de Santa Clara, vestida com o habito de freira, os olhos extacticos levantados para o céo, suspendendo, com fervor ascetico, nas mãos brancas, uma custodia doirada. Debaixo do habito appareciam os pés da santa, quasi nús, crusados no peito pelos atilhos amarellos das alpargatas.

Diante do nicho, uma lampada de ferro, pendente d'um carritel, oscillava como um thuribulo; e a luz tenue da lamparina bruxuleava a espaços, ainda esmorecida na claridade poente do dia.

Antes d'entrar, esteve Gertrudes com a cabeça descahida sobre o hombro da tia, a chorar; depois, cingiu-a estremecidamente no derradeiro abraço, soluçando:

—Adeus, minha tia, adeus!

Aproximou-se de Matheus, que assistia do lado, pallido e trémulo, áquella separação, abriu os braços para o apertar, e disse-lhe com voz debil, fitando n'elle os olhos rasos de lagrimas:

—Matheus!…

E transpoz soluçante e opprimida o limiar do convento.

* * * * *

A communidade viera receber á entrada, segundo as praxes conventuaes, a soluçante noviça. As freiras professas e as recolhidas estavam dispostas em duas filas, tendo á frente a madre-abbadessa, já muito velha, arrimada a um baculo de prata lavrado.