Aquella sala de recepção era humida, espaçosa, fria e soturna. Entrava-lhe a luz tenue coada pelas rexas oxidadas de duas frestas, que davam para o claustro. Ao fundo, sobre um altar e no meio de duas jarras com palmas e flôres artificiaes, estava a imagem de um Christo de metal amarello, com os braços abertos cravados nos braços de uma cruz de jacarandá. No peito nú e descarnado do Christo reflectia-se, como uma chaga viva, a luz vermelha da lampada de latão suspensa do docel.

A escrivã passou o braço com protectiva ternura á cinta de Gertrudes, e encaminhou-a para diante da abbadessa, dizendo-lhe a meia-voz:

—Beije a mão á nossa madre-abbadessa, menina.

Gertrudes baixou os labios á mão trémula da freira, e recebeu n'uma postura humilde, com os olhos fechados, o abraço receptivo. Em seguida abraçou-a a escrivã; e depois, de abraço em abraço, foi Gertrudes passando todas as freiras e senhoras recolhidas até á derradeira.

* * * * *

Abria para a cêrca a janella estreita da cella de Gertrudes.

Avistava-se ao longe, recortada no azul limpido do céo, a cumiada alvacenta e escalvada de uma serra.

Mais abaixo, por entre a verdura da encosta, descia a estrada em largas curvas, como uma fita que se vinha desenrolando e alargando pelo monte.

Ao meio-dia, quando o sol cahia perpendicular, a diligencia subia vagarosamente, levantando espessas nuvens de pó. Viam-se os almocreves, que vinham á cidade, trazendo pela arreata a recova dos machos.

Em madrugadas serenas, ouvia-se até o chiar longinquo dos carros de bois pelos atalhos das aldeias, o telintar monotono das campainhas dos machos e o estalido secco do chicote da mala-posta.