Um dia, logo que sahiu do refeitorio, emquanto as freiras se recolhiam ás cellas para dormir a somnata da sésta, dirigiu-se Gertrudes para a cêrca.
Era uma hora da tarde.
Na horta, as largas folhas das couves pendiam desmaiadas com o calôr intenso da estiagem. Na ramaria verde do pomar rumorejava uma viração agradavel. Em torno á folhagem escura das laranjeiras, na vibração da luz, agitava-se uma nuvem transparente de ephemeros.
Por debaixo das latadas passeiavam de braço dado algumas meninas recolhidas.
Gertrudes seguiu sósinha, cosida com o muro, por onde havia uma esteira de sombra. Ao fundo da cêrca, encostado ao tronco de uma magnolia, que projectava no saibro secco e faiscante da rua uma larga sombra, havia um banco de pedra.
Gertrudes sentou-se, tirou do bolso do avental um livro brochado, e abriu-o cuidadosamente, retirando com as pontas dos dedos, d'entre as folhas marcadas, um grande amôr-perfeito já mirrado e desbotado.
Ao cabo de alguns minutos de concentrada leitura, ouviu pipillar em cima.
Na extremidade de um ramo, que balouçava de leve, chilreava um passarinho, inclinado para baixo, entreabrindo assustado, com fremitos, as azas. Gertrudes poisou o livro de banda, subiu ao banco, e, fincando-se na ponta dos pés, aprumou-se para espreitar.
Entallado n'um esgalho e meio occulto na folhagem, havia um ninho fôfo e tépido, do qual surdiam duas cabecinhas pennujentas. Poisada no rebôrdo do ninho, estava uma toutinegra, ministrando o alimento aos filhos.
Gertrudes estava encantada! Até suspendia a respiração, com receio de perturbar a tranquillidade do ninho!