Simão ouvia isto sem levantar os olhos. De volta para casa, a freira não cessava de o reprehender.

Um dia, na ausencia de D. Bernardo, D. Leonarda, durante o almoço, esteve constantemente a gritar ao pequeno. Simão, sentado defronte, ouvia-a silencioso, sorvendo o café a pequeninos golos. D. Leonarda, no auge da sua irritação, gritou-lhe:

—Levanta a cabeça, rapaz! Deixa o café. O rapazinho poisou logo a chicara e o pão, engoliu com esforço o bocado que mastigava, e deixou pender os braços.

Não pôde comer mais.

Os unicos momentos felizes durante o mez que esteve na Povoa eram os que passava na varanda da casa, depois do jantar, em quanto D. Bernardo e D. Leonarda dormiam a sesta. Na cosinha, a criada, sentada n'uma cadeira junto da janella que deitava para uma horta, cabeceava. Simão atravessava então o corredor em bicos de pés, e ia debruçar-se no peitoril da varanda, distraido a ver na rua a concorrencia de banhistas. A vista da gente da aldeia alegrava-o. Todas as raparigas da altura da Magdalena, vistas de longe, lhe pareciam a irmã.—Se fosse!—pensava elle. Estava uma tarde muito entretido a olhar um saltimbanco que trabalhava no largo da fonte, quando ouviu que o chamavam da rua. Era a Joaquina do Espinhal. O pequeno, assim que a reconheceu, sentiu o coração pular-lhe de jubilo. A Joaquina perguntou-lhe como estava, e deu-lhe muitas saudades da Lena.

—Tu ainda te lembras d'ella?—perguntava a visinha.

Elle respondia affirmativamente e ficava muito vermelho, quasi a chorar. Pediu á Joaquina que esperasse um instante. Foi ao quarto em que dormia, tirou d'uma gaveta a medalha do Bom Jesus, que lhe dera D. Leonarda, e desceu com ella á rua para a enviar á irmã.

Logo que sahiu a porta, D. Leonarda assomou á varanda. Observou de cima o pequeno entregar á vizinha a medalha que lhe tinha dado. Teve um accesso de indignação, e esteve para gritar, mas conteve-a a idéa do escandalo.

Quando a mulher se separou, a freira berrou para baixo ao Simão, que tinha ficado parado á porta da rua:

—Ó rapaz! Sobe!