A familia da Tojeira esteve um mez a banhos na Povoa de Varzim. Habitava uma casa pequena na rua da Junqueira. A sr.ª D. Leonarda levantava-se de madrugada, e ia para a praia, seguida da criada e do Simão.
Nos primeiros dias, o pequeno sentiu um horror extraordinario pelo mar.
Entrava na barraca a tremer e a chorar, pedindo a Deus que o matasse!
A sr.ª D. Leonarda, a sós com elle, falava-lhe com aspereza e de sobrecenho carregado. O rapazito reprimia as primeiras lagrimas, e ouvia-a com submissão e humildade.
—Pois o sr. D. Bernardo e eu—gritava a freira—a termos toda a caridade por ti, e tu, ingrato, ainda choras!
E, como Simão, com a cabecinha baixa como um réo convicto, principiasse a soluçar, e as lagrimas lhe cahissem em fio, D. Leonarda indignada, levantava a voz e gesticulava convulsa:
—Tu porque choras, rapaz? Ingrato!—e, olhando sobre o hombro, observava com ironica piedade:—Sempre has de mostrar que és filho do peccado!
Diante de extranhos, no grupo das senhoras que lhe falavam, a freira de S. Salvador mudava de tom. Tinha uma voz meliflua, vagarosa, e, dando aos olhos uma feição terna, dizia do rapaz:
—É um engeitadinho, que o mano protege. Elle é que o não merece!—accrescentava D. Leonarda, azedando a voz.—É muito ingrato! Ah! nem v. ex.a fazem idéa! Depois, quasi confidencialmente, explicava:
—Sempre estes desgraçados hão de mostrar que vieram a este mundo contra a vontade de Nosso Senhor!