Denunciára-se a freira! A suspeita de que o engeitado fosse filho do irmão tinha-a sobresaltado. Nutrira sempre a esperança de ficar herdeira universal da casa da Tojeira. Á primeira noticia da existencia do afilhado, todos os seus calculos ambiciosos se abalaram. Teve o receio instinctivo do mendigo, que vê concorrente á mesma porta! Recebeu o pequeno com fingida ternura e piedade, mal podendo conter, mais tarde, o rancor que a sua presença lhe inspirava.

Quando reparou que elle estava desmaiado aos seus pés, a escorrer sangue, assaltou-a um sentimento de terror, julgando que o tinha morto. Chamou em altos brados pela criada, que appareceu no mesmo instante. O rapaz foi transportado em braços para o leito. Ao chegar D. Bernardo a casa, a criada referiu o que tinha succedido, desculpando a senhora da melhor maneira que pôde.

—Onde está a sr.ª D. Leonarda?—perguntou o morgado com ar grave e carrancudo.

—Está no quarto—respondeu a velha.—A senhora tambem ficou doente. Isto abalou-a muito.

Ao quarto dia a febre remittiu. Os receios do facultativo desvaneceram-se. No fim de uma semana, o doente sahiu da cama para uma cadeira da sala.

Caminhava amparado ao braço do padrinho, muito desfallecido de forças, pallido e tremulo. A freira via então o pequeno duas vezes por dia. Falava-lhe sem rancor, mas visivelmente constrangida.

Durante a enfermidade, a tal ponto D. Bernardo se affeiçoou ao afilhado, que passava os dias sentado junto d'elle, conversando e lendo-lhe d'alto as noticias dos jornaes.

—Quando voltarmos para a terra—dizia-lhe elle—has de tambem aprender a ler. Queres?

—Quero, meu padrinho—respondia o Simão.

Um instante depois, perguntava: