—Bem!—exclamava elle.—Agora para diante.
Então apparecia uma palavra enorme, que era um martyrio para Magdalena. Era ainda o Simão que a auxiliava amorosa e pacientemente, Fazendo-a reter bem as primeiras syllabas. Diziam simultaneamente:
—Na-tu-ra-li-da-de.
E se a Magdalena dizia bem, o Simão, n'um impeto de contentamento, tomava-lhe a cabeça entre as mãos, e beijava-a na testa.
—Muito bem, Lena, muito bem!
No dia seguinte, sahiam de casa juntos para a escola. Mettiam por um atalho aberto no meio d'um pinhal. Era um caminho triste e sombrio, com um chão humido e molle todo sulcado pelas rodas dos carros e murado d'ambos os lados pelos taludes barrentos, onde, no inverno, escorriam as chuvas. Acabava n'um terreno baixo desmoutado e areiento, ao qual vinham dar as aguas d'um regueiro. Á tardinha vinha ali beber uma revoada de pombas brancas. Mais adiante, o caminho bifurcava-se pelo meio de campos de milho. Junto ao portão d'uma quinta murada havia um grande sobreiro, a cujo tronco estava arrumada uma pedra tosca coberta de musgo requeimado. Era ali que os dois pequenos tinham de se separar, mettendo Magdalena por uma azinhaga, onde ficava a mestra-regia, e Simão por outro lado, na direcção da escola dos rapazes. Nunca o faziam, porém, sem se sentarem algum tempo a conversar. N'esses instantes Simão contava á irmã os acontecimentos da Povoa de Varzim. Magdalena ouvia-o muito attenta, com os olhos abertos, que se embaciavam de lagrimas nos lances mais commoventes.
—Eu perguntava sempre á mãe quando tu vinhas—dizia Magdalena, enxugando os olhos nas costas da mão.—Não gostava de estar sem ti. Olha Simão—pedia ella, lançando-lhe um braço sobre os hombros—agora, nunca mais has de ir embora, não?
—Quem sabe lá!—respondia o engeitado, incerto do futuro, muito triste, com os olhos fitos n'um grupo de arvores, que havia defronte...
Ás vezes, no inverno, quando um aguaceiro os surprehendia no caminho, corriam a abrigar-se debaixo d'aquella arvore. Ficavam ambos ali, muito achegados ao tronco, e tão esquecidos e abstractos, que nem davam tino da chuva que escorria dos ramos—como os dois namorados vistos por Diderot!