Magdalena já costurava e bordava com tal perfeição, que era o espanto das visinhas. Quando a Josepha mostrou uma toalha de linho bordada pela filha, para ser offerecida ao fidalgo da Tojeira, a Joaquina do Espinhal levantou nos braços a rapariga, beijou a na bocca e exclamou:

—És uma rosa, Magdalena! Louvado seja Deus! Tens umas mãos, que são uma riqueza!

O Simão lia correntemente, escrevia com boa caligraphia, sabia as quatro operações, e até já auxiliava o mestre. Era o decurião da aula. Os discipulos mais venturosos eram ensinados por elle, propenso sempre á complacencia e ao perdão, em quanto os desafortunados se viam nas mãos do sr. mestre, um velhote estupido e rabujento, que se vingava das horrendas miserias a que o lançavam os governos relapsos no calote, macerando as mãosinhas tenras das crianças com estrondosas palmatoadas!

Um domingo, na occasião em que os freguezes da missa sahiam da egreja para o adro, o mestre-escola foi ao encontro de D. Bernardo, que vinha da porta lateral da sachristia, e deu-lhe do afilhado as melhores informações. Era uma grande cabeça que ali se perdia, se o deixassem seguir a lavoura—dizia elle. O pequeno, além d'isso, era fraco e doente; e parece que estava talhado para seguir a vida ecclesiastica.

D. Bernardo recolheu a casa, pensando no que o mestre lhe dissera. Era realmente preciso tratar do futuro do afilhado. Se a vocação o não contrariasse, a vida tranquilla de sacerdote era a que mais se coadunava com as qualidades physicas do pequeno. Passados dois dias chamou-o a jantar comsigo. No fim, perguntou-lhe se queria ser padre. O pequeno não respondeu. Poz-se a correr entre os dedos a dobra da toalha, com os olhos no prato e sem proferir palavra.

—Queres, ou não queres?—insistiu D. Bernardo.

—Não, senhor—respondeu o pequeno a medo.

Desejava seguir uma vida que o não affastasse da Magdalena. O fidalgo discordou. Ponderou com palavras carinhosas que era preciso seguir uma carreira que o fizesse um homem de bem. Elle que o mandára á escola, não era de certo para o deixar ficar assim, sem um modo de vida...

—Não,—disse D. Bernardo—se não queres ser padre, ninguem te fórça. Serás outra coisa. Mas previne a tua mãe de que para a semana has de ir para Braga.

O pequeno desatou a chorar.