N'esse dia, um mez depois das ferias, o director, antes de terminarem as autos, mandou reunir na grande sala d'estudo todo o collegio. Ao lado d'elle collocaram-se os professores e os prefeitos. O director subiu ao estrado, e pronunciou de lá um longo discurso, falando em amor de Deus, em humildade, em dedicação ao estudo, em obediencia a mestres, e superiores! Os alumnos, agglomerados na vasta sala, ouviam silenciosamente, n'uma compostura grave, com os braços cahidos ao longo do corpo. Ia distribuir-se um premio a um estudante, que pela sua applicação, pela sua intelligencia e pelo seu comportamento exemplar, se tornava digno d'aquelia distincção honrosa!
O director fez uma pausa, e em seguida proferiu com voz cheia e solemne o nome do alumno distincto:
—Simão Ferreira, filho de...
E, como na registo não houvesse designação de nome dos paes, emendou:
—Natural de S. Silvestre.
O Simão sahiu d'entre a multidão, muito vermelho e commovido, adiantando-se na sala com um passo hesitante. O director fel-o subir ao estrado; e, collocando a mão sobre a cabeça do pequeno, proferiu ainda uma breve allocução laudatoria, e entregou-lhe um livro encadernado em marroquim azul com letras doiradas no frontispicio. Os professores bateram palmas, abraçaram o estudante; e Simão atravessou por entre os condiscipulos no meio d'uma saudação enthusiastica!
Á tarde, quando estava no recreio, um criado veiu chamal-o para ir á presença do sr. director. Ao entrar na sala, Simão viu ao lado do director o padre Barreiros. Tinham ambos um ar sombrio e pesado. O director, logo que o pequeno entrou, disse-lhe pausadamente, pondo-lhe uma mão no hombro:
—Meu filho! O sr. padre Barreiros acaba de me annunciar a morte do teu padrinho...
O Simão fez-se pallido, e volveu para o padre os olhos marejados de lagrimas.
—Morreu hontem de repente—disse o padre Barreiros.