—Por isso—continuou o director—vaes-te vestir para ires com o sr. padre Barreiros. Não sei se voltarás para o collegio, meu filho. Se não vieres, lembra-te sempre dos teus amigos, e continua a ser obediente e trabalhador.

O pequeno tinha o presentimento vago de que na sua vida aquelle acontecimento funesto devia ser de alta importancia. Ficou meio atordoado, como se viesse de assistir a uma catastrophe!

Que iriam fazer d'elle, sem o auxilio do seu padrinho?

Esteve dois dias mettido em casa do padre Barreiros. Ao cabo d'esse tempo, o padre disse-lhe, durante o jantar, que o sr. D. Bernardo tinha morrido repentinamente, sem deixar testamento.

Simão mal comprehendia o alcance d'aquella revelação; mas, pelo modo como o padre falava, pareceu-lhe que era de gravidade o caso.

—Procurei a mana no convento—proseguiu o padre Barreiros—e perguntei-lhe se queria continuar a proteger-te. Disse-me que o não fazia, por ora, sem saber o valor da sua casa. Ahi tens tu, Simão, como estão as coisas! Por isso, entendo que deves procurar outro modo de vida. Tens hoje treze annos, sabes ler, escrever e contar, um bocado de francez e de latim. Deves seguir o commercio para, em pouco tempo, poderes proteger a mãe que te criou, que ha de carecer do teu amparo. Queres?

De todas as considerações feitas pelo padre, Simão concluiu apenas que estava desamparado, e que era preciso trabalhar! Disse que sim, que fizesse o sr. padre Barreiros o que entendesse.

No dia immediato, o padre Barreiros foi procurar um sobrinho estabelecido com loja de ferragens na Fonte da Corcova, e offereceu-lhe o pequeno. O ferragista annuiu; mas declarou logo que o facto do rapaz ter andado no collegio «era o diabo»! Elle preferia os que sahiam das aldeias, sujeitos a toda a casta de trabalhos. Emfim, uma vez que o tio queria...

Simão entrou para a loja ao anoitecer. O patrão falou-lhe com ar carrancudo, tratando-o por tu, e dando-lhe a entender que, se o recebia, era por ser do agrado do tio. Simão não respondeu.

O tratamento grosseiro e aspero do patrão e do caixeiro mais velho da loja, a rudeza do trabalho, as condições pessimas do quarto em que dormia, sem luz, com pouco ar, entre quatro paredes humidas e pegajosas, a lida continua desde o amanhecer ate á noite, transformaram em pouco tempo o pobre rapaz, como se o minasse uma doença grave. Tinha perdido a côr sadia e a vontade de comer. Dormia mal, sobresaltado por aquella subita mudança nos habitos da sua vida! O patrão obrigava-o a trabalhos pesados; e, quando o via fraquejar sob o pezo das grandes cargas de ferragem, gritava-lhe:—Anda, avia-te! Quem não póde, arreia! Não sei de que te serve a comida!