E outras brutalidades, que melindravam e aviltavam o pequeno.
De uma vez, chamou-o para pesar n'uma grande balança, que havia ao fundo da loja, n'um armazem escuro e frio, umas canastras de fechaduras. Simão, com o suor a escorrer-lhe na testa, segurava a cesta d'um lado, o patrão do outro, e, a um impulso simultaneo, collocavam-n'a sobre o prato da balança. Á terceira carga, o pequeno não pôde mais, e deixou cahir das mãos a canastra. O patrão deu um salto, e applicou-lhe dois pontapés valentes, dados com a biqueira do tamanco. Simão principiou a chorar.
—Mexe-te—berrava o ferragista—mexe-te, ou levas outros!
Na madrugada do dia seguinte, quando o caixeiro o foi acordar para ir para a loja, Simão queixou-se d'uma forte dôr de cabeça, e pediu-lhe que o deixassem ficar na cama. Logo que o patrão appareceu, o caixeiro disse-lhe que o rapaz estava doente.
—Eu lá vou!—rosnou ameaçador o ferragista; e entrou no quarto do rapaz, ordenando que se levantasse immediatamente.—Eu tiro-te o mimo, meu menino!—dizia elle ao pequeno.—O que tu tens é ronha, grande mandrião!
Simão ergueu-se a tremer de frio. Vestiu-se á pressa, e desceu para a loja, adiante das ameaças e injurias do patrão. Passado um instante, vendo que o caixeiro se tinha ausentado, levantou a porta do mostrador, e fugiu para a rua. O patrão, que o avistara do fundo do armazem, saltou fóra, e veiu agarral-o por uma orelha no Campo da vinha. Quando se viu preso, Simão julgou-se perdido. Foi levado para casa, perseguido de successivos pontapés. Umas mulheres que passavam, pararam na rua, ao ver a furia do homem, e compadecidas do rapazinho, que, a cada momento se voltava para traz, pedindo perdão com as mãos postas:
—Perdôe ao rapazinho—imploravam ellas segurando o ferragista.—Perdôe-lhe por esta vez. sr. José.
O ferragista, porém, era implacavel.
Chegado a casa, subiu com o rapaz a uma sala do andar superior, fel-o despir a jaqueta e as calças, pegou n'um junco, e gritou-lhe pallido e tremulo de raiva:
—Ajoelhe-se, e peça perdão!