Simão cahiu de joelhos no sobrado, e ergueu as mãos.
—Agora—disse o ferragista—vamos ao correctivo.
E, com o junco vibrado com toda a força, principiou a vergastar as costas do rapaz. Simão retrahia-se d'encontro á parede, clamando por soccorro. O patrão enfurecia-se mais aos brados do padecente, e, cego de indignação, quasi sem respirar, n'um impeto convulso de fera, saltou sobre o rapaz a bater-lhe com tanta violencia, que o fez cahir no chão, soltando gritos afflictivos, com as costas retalhadas e a escorrer em sangue!
O patrão cançado e offegante abriu então a porta da sala, e sahiu.
Simão, quando se viu só, ergueu-se d'um impeto, desceu á pressa as escadas, e saltou para a rua a gritar. Ao dar meia duzia de passos, cahiu extenuado sobre o lagedo do passeio.
Reuniu-se muita gente em volta d'elle. As mulheres, em grande alarido, davam morras! contra o malfeitor.
Alguns homens tentaram levantar do chão o pequeno; mas as mulheres oppozeram-se. Uma d'ellas retirou um lençol d'uma trouxa que levava á cabeça, e embrulhou n'elle o rapazito.
—Matem este patife!—gritavam as mulheres raivosas, com as lagrimas a saltarem-lhes dos olhos.—Matem!
A multidão crescia. Logo que constou no mercado, quasi todas as vendedeiras acudiram a ver. O Simão ia já levado nos braços d'uma, com a cabeça pendente no hombro d'ella, quando d'entre o povo, que seguia atraz, se ouviu este grito dilacerante:
—Ai! que elle é o meu filho!