André Pinto ficou a pensar no caso e de si para si julgava-se ainda mais tolo do que a criada.

—Andei em correrias, reflexionava elle, e emquanto andei por lá, a rapariga fazia-me o ninho atraz da orelha. Se não tenho ido a Canellas, estava habilitado a tomar a resolução, que muito bem me parecesse. Assim, fiquei preso ao conselho de Antonio da Silveira, com os braços atados. Preciso encher-me de rasão para levar o fidalgo a mudar de parecer. O que me resta fazer é ficar de atalaya sem espantar a caça. Custa; mas não ha remedio, depois do que se passou em Canellas.

Margarida Candida desconfiou da inesperada metamorphose de brandura, que se tinha operado no tio; teve medo de que occultasse alguma perfidia machiavelica.

Apezar da vigilancia de André Pinto, ella encontrava sempre meios de a illudir. Ás noites, quando o tio ia concertar com os outros silveiristas o plano da contra-revolução restauradora que devia rebentar em Traz-os-Montes, Margarida Candida, subindo ao muro do quintal, trocava de fugida algumas palavras com o capitão.

O assumpto d’esses rapidos dialogos continuava a ser a reserva, apparentemente bonançosa, em que André Pinto se mantinha.

O capitão de dragões, apezar de querer tranquillisar o espirito de Margarida Candida, denunciava-se, involuntariamente, tambem apprehensivo e receioso, porque bem sabia elle que os odios politicos em Chaves, quando por momentos se acalmavam, resurgiam a breve trecho mais rancorosos.

E acabando por confessar um ao outro as suas apprehensões, suspeitavam de desgraça imminente; mas separavam-se jurando inabalavel constancia, por maiores que fossem os tormentos por que ambos houvessem de passar.

Mal podiam suppôr que a metamorphose de André Pinto fosse devida á entrevista com Antonio da Silveira, então adversario politico de todos os constitucionaes, porque se desaviera com elles em Lisboa, a ponto de ter sido mandado recolher, no meio de uma escolta, á quinta de Canellas.

O capitão de dragões conheceu que estava sobre um vulcão, mas o seu coração não vacillou um momento. Acontecesse o que acontecesse, Margarida Candida continuaria a ser a unica mulher capaz de o fazer affrontar a morte, se tanto fosse preciso.

Graças á lembrança de Antonio da Silveira, chamavam-lhe a ella a Flôr do Támega. Pois bem! esse valoroso capitão de cavallaria 6, que tinha vindo das campanhas da guerra peninsular, em que tantas vezes encarára a morte de perto, estava resolvido a tomar por divisa, no resto da sua vida, a bella Margarida do jardim feminino de Traz-os-Montes, e a defendel-a até ao sacrificio com o heroismo dos cavalleiros da idade-media, tão romanescos como destemidos.