A senhora que o acompanhava era a mãe da secular.
Jayme, que se estreiára com felicidade, e estava fazendo importantes interesses, podéra preparar com um certo conforto o seu lar conjugal.
Depois requereu ao respectivo prelado a licença indispensavel para Ernestina sahir do convento. O prelado despachou favoravelmente, e Jayme, munido d’essa licença e acompanhado de sua tia, que tinha deixado o Porto para ir viver com elle em Evora, foi a Arouca buscar a prima que queria desposar.
A abbadeça, irritada, como todos os miguelistas, pelo exilio do infante, refinára em odio aos liberaes, e enfureceu-se sobremodo com a visita d’um pedreiro-livre, que, de cabeça alta, com orgulhosa altivez, ia dizimar-lhe o sagrado rebanho, arrancando uma victima ás vinganças da politica monastica.
De mais a mais, creando difficuldades á sahida de Ernestina, obstava á constituição odiosa de uma nova familia maçonica, no que julgava prestar um dedicado serviço á causa do absolutismo e da santa religião.
Portanto, vindo á grade receber essa impertinente visita, peremptoriamente declarou que o documento apresentado, salvo o respeito devido ao despacho episcopal, não era bastante a justificar a entrega da educanda.
Disse que Ernestina de Carvalho fôra recebida por ordem do governo, medeante auctorisação do prelado. Ora, o documento que lhe apresentavam, se tinha authenticidade ecclesiastica, carecia de sancção civil.
—Nos tempos que vão correndo agora, accrescentára a abbadeça com rispido azedume, a desordem nas coisas publicas não pode ser maior, porque todos querem mandar. Tenho aqui, é certo, a auctorisação do nosso reverendo prelado. Mas se eu deixar sahir a menina sem mais formalidades, e amanhã o governo do reino se lembrar de perguntar-me o que fiz eu de uma secular que por elle me fôra entregue, não sei o que hei de responder. Vá pois Vossa Mercê entender-se em Lisboa com os ministros d’estado, traga da chancellaria da côrte uma ordem que invalide a que me enviaram para receber a educanda, e eu lh’a entregarei então sem o menor impedimento. Nós, que fômos educadas a respeitar o poder real, não estamos habituadas nem dispostas a fazer côro com os revolucionarios que o pretendem abalar.
Jayme de Carvalho ficou fulminado com esta recusa formal. Quiz argumentar, discutir com a abbadeça, que, sem mais explicações, inclinou levemente a cabeça, e sahiu da grade.
—Não ha que ver! disse Jayme a sua tia. Tenho de ir a Lisboa! José Maximo parece que adivinhava! Espero que não terei mais demora do que chegar e voltar. Por isso resigne-se minha tia a ficar aqui em qualquer casa que por alguns dias a queira receber, evitando assim, na sua idade, os incommodos de uma segunda jornada. Eu sou novo e forte, não me fatigarei, nem demorarei muito.