Nenhuma das familias pobres de Arouca quiz receber a tia de Jayme de Carvalho, quando se soube que ella era a mãe da secular constitucional, originaria de maçons. Receiavam a colera da abbadeça, e da communidade. Entre as familias nobres uma lhe daria certamente pousada, era a da quinta do Outeiral; mas José Bernardo Pereira de Vasconcellos estava a esse tempo em Cezár no solar do Outeiro. Só em Sobrado de Paiva foi possivel encontrar hospedagem, graças ao silencio que tia e sobrinho aprenderam a guardar sobre o motivo da sua jornada.
Jayme de Carvalho chegou a Lisboa em tão má hora, que foi encontrar agonisante, nos primeiros dias de março, el-rei D. João VI.
Os ministros não davam audiencia, nem despacho. Passavam o dia na Bemposta, muito preoccupados com a magna questão politica da successão ao throno.
Fóra do Paço boquejava-se que o rei já estava morto, mas que o governo, para fazer vingar a hereditariedade de D. Pedro IV, e ter tempo de nomear a regencia interina, occultava a sua morte.
Os constitucionaes contradictavam este boato, e os miguelistas mostravam-se muito exaltados contra a postergação dos direitos de D. Miguel, por isso que D. Pedro, depois da independencia do Brazil, não era para Portugal mais do que um principe extrangeiro.
D. João VI fallecêra antes ou depois de ter apparecido o decreto, que reconhecia a successão de D. Pedro e nomeava a regencia provisoria. Mas a sua morte fôra declarada officialmente, e seguira-se o funeral e o luto da côrte, de modo que Jayme de Carvalho não poude obter uma audiencia da infanta regente.
Procurava todavia os ministros, expunha-lhes o estado da «sua questão», e os ministros, que estavam a vêr no que paravam as modas e que não queriam indispôr-se abertamente com nenhum dos dois partidos militantes, respondiam que o assumpto era melindroso, e que não podiam dar despacho sem levar primeiro o negocio ao conhecimento da «senhora infanta D. Isabel Maria».
Jayme estava ainda em Lisboa, sem conseguir uma resolução do poder executivo, quando chegou, pela corveta Lealdade, a noticia de ter D. Pedro outorgado a Carta Constitucional.
Apesar de muito contrariado por tão extranha demora, agora prolongada pela ausencia da regente, que estava em tratamento nas Caldas da Rainha, Jayme saudou com enthusiasmo a resurreição do constitucionalismo que ia inaugurar, pensava elle, uma nova epocha de felicidade para Portugal.
O ministerio e a regente receberam com dolorosa surpreza a constituição que viera do Brazil, e adiavam de dia para dia não só o juramento da Carta, mas tambem todos os negocios que podessem augmentar o descontentamento dos miguelistas.