De modo que não foi possivel a Jayme de Carvalho obter um despacho, simples na apparencia, mas que certamente desagradaria á communidade de Arouca, porque era transparente a intenção dilatoria da abbadeça.
De repente, porém, Saldanha, governador das armas no Porto, Saldanha que, um anno antes, havia cavalgado em triumpho, na volta de Villa Franca, ao lado do infante D. Miguel, arvorou-se em defensor da Carta e principal propulsor do seu immediato juramento.
Logo que isto constou em Lisboa, surprehendendo o espirito intransigente das primeiras familias da nobreza absolutista, com as quaes Saldanha estava aparentado, Jayme de Carvalho metteu-se n’um vapor, e sahiu de Lisboa para o Porto.
O seu fim era obter a protecção de Saldanha, a quem logo tratou de procurar.
Foi recebido sem demora, e expôz ao general o «estado da questão». Saldanha, caracter impressionavel e coração ardente, muito impetuoso e algo romanesco, acolheu com viva sympathia o jovem advogado, que implorava o seu valimento.
O general disse resolutamente a Jayme de Carvalho:
—Vou fazel-o acompanhar por um official da minha confiança, que irá encarregado de dizer á madre abbadeça o seguinte: «Ou ella entrega já a menina que acintosamente retém ou eu pessoalmente a vou lá buscar».
Jayme cahiu de joelhos deante do general, abraçou-lhe as pernas, beijou-lhe a mão, não obstante Saldanha forcejar por levantal-o.
N’aquelle momento historico, Saldanha era o papão dos miguelistas, que o odiavam mas temiam.
A abbadeça de Arouca, vendo na grade um official bigodoso a intimar-lhe a ameaça de Saldanha, tremeu como varas verdes, amaldiçoou a Carta, mas entregou Ernestina de Carvalho, e o casamento effectuou-se alguns dias depois, em Evora.