Principiou ahi mesmo a colher informações, que o aterraram. O estalajadeiro asseverou-lhe que Antonio Maria e José Maximo estavam implicados no crime. Contou, segundo a versão dos estudantes presos, que tinham sido aquelles dois os que primeiro atacaram as caléças. E accrescentou que, tendo José Maximo combatido, nos Divodignos, a proposta de Antonio Maria, para irem esperar os lentes ao caminho, muita gente se admirava de que elle se avantajasse aos outros, com Antonio Maria, na arremettida, se bem que alguns explicassem que o fizera para não ser alcunhado de cobarde.

—Deve ter sido assim, pensou frei Simão.

Proseguindo, o estalajadeiro disse mais:

—Que toda a indignação dos presos era contra Antonio Maria, que fôra quem os perdêra. Que era uma pena vêr tantos rapazes de boa familia desgraçados por a loucura d’um só; não só desgraçados, mas tambem infamados pelo roubo das bagagens.

—Duvido, observou convictamente frei Simão, que José Maximo se associasse a essa infamia. É preciso não o conhecer.

—Lá isso assim é, commentou um criado, o Agostinho, porque o doutor Neves veiu dizer que conheceu perfeitamente José Maximo pela voz, apesar de elle ter a cara tapada como os outros, quando gritou que não maltratassem os lentes, e diz que não sabe ao certo, pela atrapalhação em que estava, se José Maximo era um que o cobria com o corpo, mas que lhe parece que sim.

—Tudo isso são attenuantes. Melhor elle se tivesse apresentado á justiça.

—Qual! replicou o estalajadeiro. Fez muito bem em fugir, porque o castigo ha de ser severo para exemplo de todos. Dos estudantes que faziam parte da loja da rua do Loureiro já não está em Coimbra nem um unico. Fugiu tudo. Até fugiram os que não foram a Condeixa. O Moacho, que era o presidente, e estudava para capello, já desappareceu tambem.

N’isto entrou na casa do jantar, e pediu o seu candeeiro para recolher-se ao quarto, um sujeito de boa apparencia.