O estalajadeiro piscou o olho a frei Simão, como a recommendar-lhe silencio.
O criado Agostinho deu o candeeiro ao hospede, e o estalajadeiro, após alguma pausa, disse quasi ao ouvido de frei Simão:
—Este sujeito é de Lisboa, e dizem que veiu cá para vêr se salva um dos presos.
—Qual preso?
—Domingos Joaquim dos Reis, que é filho do capitão-mór de Cintra: muito rico. Veja Vossa Reverencia! uma creança de vinte annos! Mas parece que nem o dinheiro o salvará, porque consta que o ministro das justiças mandou ordem ao Cabaças para activar as averiguações. Isto é uma grande desgraça! Bem faço eu que me não metto em politica: em primeiro logar, porque tenho de viver com todos; em segundo logar, porque não quero desgraçar a minha familia.
Frei Simão estava fulminado pelas más noticias que lhe déra o estalajadeiro, e que foram confirmadas pela voz de todas as pessoas a quem poude ouvir sobre o assumpto.
Recolheu ao Outeiro mergulhado em profunda tristeza, mas resolvido a contrafazer-se para que nenhuma de suas irmãs soubesse o que se tinha passado.
Apenas se abriu com o Marques dizendo-lhe em segredo:
—Pobre rapaz! está perdido! É certo que fugiu. Mas occultaremos a verdade. Nem uma palavra, entendes? Nem uma palavra.
E nem Anninhas nem as outras irmãs de frei Simão tiveram noticia da tragedia do Cartaxinho.