Ahi por abril, frei Simão disse que ia a Coimbra visitar José Maximo. Receiava que D. Anna notasse a falta de cartas d’elle. Ausentou-se por trez dias: esteve em Oliveira de Azemeis. Quando voltou, deu boas noticias de José Maximo: que se havia desculpado de não ter escripto por se aproximar o fim do anno lectivo, e estar muito sobrecarregado de trabalho. Mas que gozava perfeita saude.

—O peior, pensava frei Simão, é quando o fim do anno lectivo chegar. Pobre Anninhas!

A 16 de maio rebentou no Porto a revolução contra o governo de D. Miguel. Frei Simão estava no segredo do movimento. Fôra prevenido por Frederico Pinto, que a junta revolucionaria nomeára commandante da companhia dos Matutos e officaes de tanoeiro de Villa Nova de Gaya.

A revolução alastrou desde o Porto até Coimbra.

Em Cezár, o frade, armado á frente dos seus criados, sahiu a proclamar a rebellião contra a auctoridade do regente. Ninguem ousou oppor-se-lhe. Todos os visinhos absolutistas trataram de esconder-se.

Foi porém ephemero esse movimento, que terminou tristemente, e que teve a Belfastada como vergonhoso epilogo.

Esmagada a revolução, os absolutistas de Cezár sahiram da tóca, mas o frade esperou-os resolutamente. Não fugiu. Acceitou a sua posição de vencido, e preparou-se para resistir aos odios que, contra elle, se desencadeáram então aberta e ostensivamente.

Preveniu-se andando de espingarda ao hombro e substituindo o habito por uma jaqueta, para não ser tão facilmente reconhecido de longe.

Uma vez, em Pedra-Mar, frei Simão encontrou um dos seus adversarios. Iam ambos armados. Instinctivamente metteram a espingarda á cara um do outro. Estava de per meio uma arvore, um pinheiro, que ambos queriam aproveitar como resguardo. O absolutista, a tão pequena distancia do frade, receiou-o. Frei Simão não queria disparar senão em legitima defesa. E assim andaram por algum tempo á volta da arvore, dizendo um ao outro «Dispara tu», «Dispara tu primeiro», sem que nenhum dos dois disparasse.