XIX
A caça ao homem

Raiou a epocha dos caceteiros, dos delatores, das alçadas sanguinarias, das forcas, dos degredos, aos gritos do «rei chegou».

Silva Gayo—«Mario».

Ignacio da Fonseca foi á Villa da Feira dizer ao corregedor da comarca, Francisco Monteiro Mourão Guedes de Carvalho, que se o senhor D. Miguel era, desde o ultimo dia de junho, rei de Portugal, por vontade de clero, nobreza e povo, como se provára pelo voto unanime das côrtes geraes dos trez estados do reino, justo parecia que os mais encarniçados adversarios da politica triumphante não campeassem em plena liberdade vexando os vassalos fieis e dedicados.

—Por que me diz Vossa Mercê isso? perguntou Mourão Guedes.

—Porque frei Simão de Vasconcellos passeia livremente por Cezár, de arma ao hombro, pondo em risco a tranquillidade dos seus visinhos.

—Ainda não é tarde, replicou o corregedor, para justarmos contas com os nossos adversarios, que não são poucos. Não se vae a Roma n’um dia, mas, caminhando sempre, lá se chega. Vossa Mercê sabe que a familia Vasconcellos já começou a experimentar a acção da justiça.

—Se Vossa Senhoria se refere ao supposto sequestro feito na quinta do Outeiral, em Arouca, dir-lhe-hei que decerto José Bernardo se ficou a rir, por isso que lhe foi attendida a reclamação relativa a alimentos.

—Mas a propriedade ficou sequestrada, e alvoroçado, pelo facto do sequestro, o espirito publico d’aquella villa contra a familia de José Bernardo, que ali suppunham superior ao alcance de qualquer represalia. Tanto assim foi que José Bernardo já retirou do mosteiro de Arouca uma filha, que lá estava a educar, reconhecendo d’esse modo que lhe era hostil o animo das pessoas gradas da villa, incluindo as freiras.