Fica na Praça, a meio da qual se levantava então o pelourinho, agora substituido pelo chafariz, que pertencêra ao convento dos Loyos.

A cadea, certamente construida no seculo passado, é um casarão de dois andares, não contando as janellas lateraes á dupla escada de pedra, que dá accesso ao edificio.

Em cada andar, quatro janellas por banda, gradeadas de ferro. O ultimo tem a meio o sino, e nivela-se com o predio contiguo, de que era então proprietario o irmão do conde das Antas[3].

A cellula que frei Simão occupou era a do ultimo andar, encostada ao predio visinho. Tinha, como as outras, um forte tecto de castanho, e solidas paredes.

No dia da chegada do frade, toda a população da Villa da Feira se alvoroçou e reuniu na Praça para o vêr. Comquanto fosse rara a semana em que não entrasse na cadeia um preso absolutista, a lenda que se fizera em torno do nome de frei Simão de Vasconcellos excitava vivamente a curiosidade, dando ao facto da sua prisão um interesse excepcional.

Toda a gente desejava vêr esse destemido frade, que tanto custára a cahir no laço, e do qual se contavam proezas de extraordinario valor.

A população reuniu-se não só na Praça, em frente da cadeia, mas ainda se espraiava em grupos pela estrada de Cezár, até grande distancia.

O aspecto da multidão, na Praça, chegava a ser pittoresco, posto que nos trajes das mulheres e dos homens uma côr unica predominasse,—o vermelho, côr garridamente festiva e, n’aquella occasião, triumphal. Era a côr symbolica do absolutismo, adoptada nos lenços das mulheres e nas gravatas e topes dos homens.

O dia estava magnifico de sol, a primavera aquecia, illuminava a encosta viridente do Castello, que desde a Praça se avistava pela embocadura da rua Direita, como um bello panno de fundo. O alcáçar moirisco, todo afogado em héra, recortava sobre a frondosa matta, que o rodea, as suas quatro torres, de corucheos pyramidaes, muito elegantes, rematados em tulipas de granito.