O Marques ouvia os queixumes da «sua querida menina» e dizia-lhe, por serenal-a, que sabendo naturalmente o sr. José Maximo o que tinha acontecido a frei Simão, não quereria escrever para o Outeiro na ausencia do chefe da familia, porque o fazel-o poderia parecer abuso de confiança ou falta de respeito.

Ella ouvia-o melancolica, mas as palavras d’esse bom amigo não conseguiam apagar as suas apprehensões e duvidas, por igual inquietadoras.

Um dia, pela manhã, a familia do Outeiro foi surprehendida por um agudissimo grito, de uma expressão de dôr dilacerante, que partira do quarto de D. Anna.

Todas as pessoas da casa acudiram espavoridas, e foram encontral-a de pé, com o braço direito agitado por um tremor nervoso, os dedos da mão justapostos e ligeiramente curvos, a cabeça pendida mas firme, o olhar cadente e spasmodico, a physionomia paralysada n’uma immobilidade de estatua.

No chão, a pequena distancia, viram um papel aberto. Apanharam-n’o, e leram-n’o.

A lettra e a orthographia revelavam um disfarce grosseiro. O texto do papel dizia:

«José Maximo foi um dos estudantes de Coimbra que mataram os lentes em Condeixa. Anda fugido e a sua cabeça vale muito dinheiro a quem o entregar morto ou vivo. Se não sabiam esta grande novidade ficam-n’a sabendo agora, para seu regalo, porque foi essa maldita raça de pedreiros-livres do Outeiro que o perdeu. Lá se foi um casamento pela agua abaixo. Deus escreve direito por linhas tortas.»

Tratou-se de averiguar como esse papel fôra parar ás mãos de D. Anna de Vasconcellos. Quem lh’o entregou? como chegára até ali?

Uma criada lembrou-se de ter visto pela manhã, quando ia soltar as aves, um pequeno papel entalado debaixo da vidraça na janella d’aquelle quarto. Pensou que a menina o deixaria ali por qualquer motivo ou que ali teria ficado casualmente, quando o deitasse fóra. N’uma palavra, não ligou importancia ao facto.

Francisco Marques chegou a suspeitar da cumplicidade d’essa criada ou de qualquer outro serviçal. Mas, proseguindo em averiguações, descobriram-se as pégadas de alguem que tinha de noite saltado o muro para ir collocar o papel na janella.