Effectivamente, o estado de frei Simão continuava a ser muito grave.
Logo que elle chegou á cadeia, o doutor Corrêa Ribeiro mandou chamar o cirurgião Soares de Albergaria para conferenciarem sobre o tratamento a seguir.
Combinou-se que, passados alguns dias de repouso, se sondasse a ferida com o estilête, o que até ali não tinha sido possivel fazer pelo receio de avivar a hemorrhagia.
D. Maria Albina ficou na Villa, hospedada na estalagem da Franceza, para assistir ao curativo do irmão, uma vez por dia, o que o doutor Correia Ribeiro pudera conseguir, por o julgar indispensavel, segundo requerêra e attestára.
Na casa do Outeiro passava-se, na ausencia de frei Simão e de D. Maria Albina, uma vida solitaria e triste, sempre alvoroçada pelo receio de provaveis aggressões e perseguições.
Os visinhos estavam victoriosos, triumphantes. Todas as vantagens da occasião eram d’elles. Não se sabia quando frei Simão poderia recuperar a liberdade, nem mesmo se chegaria a recuperal-a. O futuro era, para aquella familia, uma duvida atroz.
D. Anna e D. Antonia não sahiam de casa, nem fallavam com qualquer pessoa extranha. Francisco Marques cumpria pontualmente as ordens de frei Simão. Como um Cerbéro, um cão de guarda, vigiava, noite e dia, as duas senhoras que lhe haviam sido entregues. Sempre receioso de alguma investida dos visinhos, dormia sobre uma esteira, com uma escopeta á mão, no corredor sobre o qual abriam as portas dos quartos interiores.
Os outros criados tambem não se deitavam nunca sem primeiro ter verificado a segurança das fechaduras e ferrôlhos, e se as espingardas, sempre carregadas, estavam no seu logar.
Anninhas era a mais triste e apprehensiva das pessoas da casa. Comquanto continuasse a ignorar a desgraça de José Maximo, inquietava-se com a falta de noticias de Coimbra.
Sentia-se fatigada, tinha de interromper muitas vezes a costura por lassidão nos braços. Lastimava-se. Perdêra o apetite e o somno.