Eis o que a experiencia lhe dictava; sabia principalmente o que os factos lhe haviam ensinado.
Se elle possuisse toda a sciencia do seu tempo, poderia ter justificado o diagnostico da paralysia agitante com uma brochura que sobre o assumpto dera á estampa, onze annos antes, o medico inglez Parkinson.
Os professores do protomedicato tinham-lhe ensinado o que Galeno dizia ácerca do tremor paralytico e do tremor clonico ou antes do tremor e da palpitação; mais nada. Mas a experiencia guiara-o a conhecer praticamente os caracteres fundamentaes da doença, a sua marcha normal, e etiologia.
Anna de Vasconcellos não readquirira a voz. Estava completamente privada de communicar, fallando, os seus pensamentos, em virtude da aphonia; e escrevendo, em virtude da convulsão e deformidade da mão direita.
A sua vida era pois uma tortura horrorosa. Pensava, recordava, vivia o bastante para atormentar-se pela memoria; mas não podia sahir de si mesma para desabafar a sua dôr.
A aphonia hysterica, como diria um medico do nosso tempo, privava-a de communicar pela palavra com o mundo exterior, se bem que D. Anna, no segredo do seu espirito, talvez agradecesse a Deus o ter perdido o uzo da palavra escripta ou fallada, que só poderia servir-lhe para insistir nas recordações cruciantes do passado.
Chegou a inesperada noticia á cadeia da Villa da Feira, e frei Simão disse á irmã mais velha:
—Vae tu para o Outeiro. Eu vou indo melhor. Melhorei o que podia melhorar. O resto não tem cura. A nossa infeliz Anninhas precisa mais de ti do que eu. Logo que me deixem sahir d’aqui ou que eu possa sahir, irei vêl-a. Cumpra-se a vontade de Deus; acceitemos resignados a desgraça com que experimenta a nossa fé.
Padre Antonio Pinheiro, se tivesse ouvido estas palavras, não as extranharia.
O virtuoso sacerdote, conversando com Ignacio da Fonseca, que bramia maldições contra a familia do Outeiro, especialmente contra o frade, disse-lhe serenamente: