—Julgo frei Simão um crente, a quem as paixões humanas teem allucinado, mas cuja consciencia não conserva odios nem rancores.
—Ora essa! sr. padre Antonio! observou, indignado, Ignacio da Fonseca. Não sabe que os pedreiros-livres não crêem em Deus, e que são capazes de mentir a Nosso Senhor por isso mesmo que não o temem?!
—Sei. Mas Deus é misericordioso, e ouve os que lhe imploram a conversão das almas transviadas. Frei Simão seria favorecido pela misericordia divina. Não affirmarei que seja um bom catholico o frade que voluntariamente despiu o habito, mas cuido não errar dizendo que descubro n’elle a consciencia tranquilla de um bom christão.
—Fraca consciencia a que não tem remorsos dos seu crimes!
—Conheço de ha muito tempo os erros de frei Simão, mas desconheço os seus crimes.
—Pois não foi elle que perdeu meu sobrinho? Não foi aquella maldita casa do Outeiro que o perverteu?!
—Quem perdeu e perverteu seu sobrinho foram as idéas d’este seculo corrupto e impio; foi a corrente das paixões desenfreadas e loucas. Vossa Mercê, sr. Ignacio, falla da sua paixão, e eu comprehendo-o, e lastimo os seus desgostos. Tambem frei Simão se deixou tocar por essa desgraçada corrente, que lhe allucinou a cabeça, mas que não conseguiu, creio eu, minar-lhe ainda o coração.
Ignacio da Fonseca não podia duvidar das crenças politicas de padre Antonio, mas ficou pensando que o espectaculo dos grandes crimes, que a liberdade tinha commettido em França, Hespanha e Portugal, lhe haveria escurentado a razão.
Padre Antonio vivia muito concentrado, resando prostrado no oratorio, e teria enlouquecido de terror na meditativa solidão do presbyterio. O facto de ter sido chamado para confessar frei Simão de tal modo abalaria a sua debilitada intelligencia, pensava o tio de José Maximo, que não conservava uma limpida recordação d’esse facto. Não ouvira o frade, não soubera explorar-lhe a consciencia, estivera junto d’elle sob a commoção do terror.