XXI
O napoleão de ouro

Perdi a minha Nize, a gloria minha,

A minha liberdade:

Remotos estes bens, que bem me resta?

Bocage—«Ode á Fortuna».

José Maximo, entrando em Hespanha, passou uma vida miseravel até chegar a Ciudad-Rodrigo.

A ferramenta de caldeireiro apenas lhe servia para disfarce, pois que elle ignorava completamente o officio. Pensava em aprendel-o, acceitando a indicação do acaso. Mas faltavam-lhe recursos, que aliás podia ter, para os primeiros dias de jornada. Logo explicaremos este caso. Viu-se, pois, na necessidade de ir mendigando, pedindo pelo amor de Deus um bocado de pão.

Seguira em direcção a Ciudad-Rodrigo por lhe parecer que a sua presença n’uma cidade daria menos nas vistas do que em qualquer das pequenas povoações fronteiriças, como Zarza ou Perales. Obedecendo a esta consideração, não queria comtudo affastar-se muito da raia portugueza. O coração—a saudade e o amor—prendia-o a Portugal. Receiava saber o que teria acontecido a sua mãe e a Anninhas, mas desejava sabel-o. Pobre mãe! teria talvez morrido de afflicção ao vel-o tão desgraçado. E Anninhas? Quem o podia saber! A fronteira de Portugal levantava-se agora entre o passado e o presente, impenetravel como a muralha da China.

Chegando a Ciudad-Rodrigo, viveu na maior miseria os primeiros dois dias. Esmolava por portas. Foi, no terceiro dia, bater a uma, em cujo páteo uma creança bem vestida, e sentada ao sol, estava estudando em voz alta. Era um menino de doze para treze annos de idade.

Quando o pequeno estudante deu com os olhos em José Maximo, teve um movimento de repulsão. Aquelle caldeireiro fez-lhe medo, tão feio era depois que queimara e retalhara o rosto.