José Maximo comprehendeu a impressão que produzira, e disse ao menino, em correcta prosodia hespanhola:

—Não tenha medo de mim, que não faço mal a ninguem. Sou um desgraçado caldeireiro, que, por falta de trabalho, se vê obrigado a pedir esmola.

O menino deteve-se indeciso, e o caldeireiro disse ainda para captar-lhe a sympathia:

—Vi que estava estudando latim. Custa-lhe a decorar as declinações?

O pequeno ficou admirado da pergunta, achando, sem medir todo o alcance, que não fazia sentido a profissão d’esse homem com o facto de conhecer a existencia das declinações latinas.

José Maximo, vendo a surpreza que causára, arrependeu-se do que dissera. Podia ter-se denunciado n’aquella hora. Mas conheceu tambem que, na alma do seu interlocutor, succedera á surpresa do primeiro momento um tal ou qual respeito pelo mendigo que parecia saber mais do que elle.

Perguntou-lhe o menino se sabia latim.

José Maximo, não querendo contradizer-se flagrantemente, disse-lhe que alguma coisa tinha aprendido em pequeno, mas que a sua má cabeça o levára a abandonar os estudos, pelo que se vira na necessidade de procurar um officio. Que pozesse o menino os olhos n’elle, e na sua desgraça, para estimular-se a estudar por amor do futuro.

A mãe do menino, andando na sua lide domestica, ouviu estas ultimas palavras, e veiu vêr quem era a pessoa que tão acertado conselho estava dando a seu filho.