Em S. João da Madeira soube que os seus adversarios politicos reclamavam que se galardoasse com o laço da forca a provocadora zombaria da evasão. Era á conta de provocação irritante que elles lançavam mais esse acto de audaciosa coragem.

A casa do Outeiro fôra effectivamente cercada e revistada durante duas noites consecutivas.

—Que infamia! exclamou frei Simão quando o seu amigo de S. João da Madeira lhe deu noticia do facto. Nem sequer respeitam a desgraça, a doença de minha pobre irmã!

Ao cabo de quinze dias, constou-lhe que era no Porto que as justiças o procuravam; já haviam dado um assalto á casa de Frederico Pinto.

Então achou que seria menos perigosa a sua ida a Cezár. Tomou um disfarce, que as barbas crescidas durante o tempo da prisão completavam, e metteu-se de noite ao caminho.

Encontrou na estrada um homem, que, apesar da escuridão, fez reparo no frade. Era um vendilhão de peixe miudo, que costumava percorrer as povoações com grandes cargas de sardinha fresca de Espinho. Frei Simão conheceu-o, mas ficou duvidoso sobre se tambem teria sido reconhecido; notára apenas que o vendilhão o olhára com curiosidade. Tanto bastou, porém, para que pensasse em acautellar-se.

Como? e aonde? Quanto mais se aproximava da sua terra natal, mais devia temer a perseguição.

A noite ia alta, não tardaria a arraiar a primeira claridade da manhã. Não sabia a que porta podesse bater sem o perigo de uma denuncia, quando avistou as duas torres da egreja de Cezár. Lembrou-se então das palavras da Sagrada Escriptura: pulsate et aperietur vobis. O abbade era um absolutista moderado; mas frei Simão conhecia-lhe bem a alma incapaz de uma vingança politica; quanto ao padre Antonio Pinheiro, bastou recordar-se das doces palavras de charidade evangelica, que elle lhe havia dito quando o confessára.

Resolveu-se a ir pedir abrigo á abbadia. E foi.